





 A divorciada disse sim!
   The divorcee said yes!
   Sandra Marton
   Casamento do ano 2


    Annie Bennett Cooper e o ex-marido, Chase, no se viam desde o divrcio, havia cinco anos. Agora, o casamento da filha os colocava frente a frente. Posso lidar
com isso, pensou cada um. Mas nem Annie nem Chase imaginavam o que os pais podiam fazer pela felicidade de seus filhos. No  imaginavam tampouco, a paixo que ainda
ardia entre eles;
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    CAPTULO UM
    
    Era o dia do casamento da filha e Annie Cooper no conseguia parar de chorar. 
    - S vou retocar a maquiagem, querida - dissera a Dawn, minutos antes, quando as lgrimas comearam a brotar mais uma vez. 
    E l estava ela, tranca da numa cabine do toalete feminino de uma linda igrejinha antiga Connecticut, com um monte de lenos de papel ensopados na mo. 
    - Prometa que no vai chorar, me - pedira Dawn, na noite anterior. 
    As duas haviam conversado at tarde, tomando chocolate com canela. No tinham sono. Dawn estava muito excitada e Annie quis aproveitar at o ltimo minuto a 
companhia da filha antes que fosse viver longe dela. 
    - Prometo. Logo em seguida; comeara a chorar. 
    - Ah, mame, assim voc vai borrar a maquiagem! 
    Dawn no se conformava com o fato de a me ainda trat-Ia como se fosse uma adolescente irresponsvel. 
    O problema era que Dawn ainda era uma adolescente, pensou Annie, enxugando as lgrimas copiosas. Seu beb tinha apenas dezoito anos. Era jovem demais para se 
casar. Claro que no tivera argumentos para convencer Dawn disso na noite em que ela chegara em casa com um anel de noivado no dedo. 
    - E quanto anos voc tinha quando se casou? - rebatera a filha. 
    A questo encerrara a discusso, pois Annie tivera que admitir: - Dezoito, o mesmo que voc, e olhe o que aconteceu comigo. Com certeza, o divrcio dos pais 
no era culpa de Dawn. 
    - Ela  muito jovem - sussurrava Annie, enquanto secava as lgrimas, - , jovem demais... 
    - Annie? 
    A porta do toalete feminino abriu-se, deixando entrar o som de vozes distantes e msica de rgo, que sumiram quando a porta fechou-se novamente. 
    - Annie? Voc est a? Era Dbora Kent, sua melhor amiga. 
    - No - murmurou Annie, sentindo-se miservel, e reprimiu um soluo. 
    - Annie, saia da - encorajou Deb, gentil.           - No. 
    - Annie... - Deb estava usando o mesmo tom que provavelmente usava com seus alunos do primrio. - Isso  ridculo. No pode se esconder a para sempre. 
    - D-me um bom motivo - desafiou Annie, fungando. - Bem, h setenta e cinco convidados aguardando. 
    - So cem - soluou Annie. - Que esperem. 
    - O pastor est ficando impaciente. 
    - Pacincia  uma virtude - rebateu Annie, e jogou os lenos de papel usados no vaso sanitrio. 
    - Acho que sua tia Jeanne deu uma cantada em um dos padrinhos. 
    Seguiu-se um longo silncio e, ento, Annie gemeu. - Voc est brincando! 
    - De jeito nenhum. Ela est com aquele olhar... voc a conhece. 
    Annie fechou os olhos. - E? 
    - E ela rebolou para o lado aquele moo loiro. - Deborah falava sonhadora. - Na verdade, no a culpo. Viu o corpo daquele rapaz? 
    - Deb! Francamente! - Annie apertou a descarga, abriu a porta da cabine e foi at a pia. - Tia Jeanne tem oitenta anos. A gente perdoa. Mas voc... 
    - Oua, s porque tenho quarenta anos no significa que estou morta. Voc pode fingir que no sabe no que os homens so bons, mas eu, com certeza, no estou 
nessa situao. 
    - Quarenta e trs - corrigiu Annie, enquanto vasculhava a bolsinha. - No pode m enganar quanto  sua idade, Deb. No quando fazemos aniversrio no mesmo dia. 
E, quanto  especialidade dos homens, creia-me, eu sei no que eles so bons. No em muita coisa. Em nada, para ser franca, exceto para fazer bebs, 
    e esse  o problema. Dawn ainda  um beb. Ela  jovem demais para se casar. 
    - Isso me lembra o motivo de vir procur-Ia. - Deb limpou a garganta. - Ele est aqui. - Quem est aqui? 
    - O seu ex. 
    Annie endireitou o corpo. - No. 
    - Sim. Chegou h cinco minutos. 
    - No, ele no pode estar. Est na Georgia ou na Flrida, em algum lugar assim. - Annie olhou para amiga pelo espelho. Tem certeza de que era Chase? 
    - Um metro e noventa, cabelo loiro-escuro, aquele belo rosto com nariz ligeiramente torto e,msculos bem torneados... - Deb enrubesceu. - Bem, eu noto essas 
coisas. 
    - Estou vendo. 
    -  o Chase, sim. No sei por que est to surpresa. Ele disse que estaria aqui para o casamento de Dawn, que no deixaria que mais ningum levasse a filha ao 
altar. 
    Annie desdenhou. Abriu a torneira, passou sabonete nas' mos e esfregou-as com energia. 
    - Chase sempre foi bom em promessas. S no consegue cummpri-Ias. - Fechou a torneira e pegou uma folha de toalha de papel do dispositivo . - Isso tudo  culpa 
dele. 
    - Annie... 
    - Ele disse a Dawn que ela estava cometendo um erro? No. 
    Com certeza, no! O canalha deu a bno. A bno. Deb, pode imaginar? - Annie amassou o papel e jogou-o no cesto de lixo. - Eu conversei com ela, disse-lhe 
para esperar, pedi-lhe para acabar os estudos. Ele lhe deu um beijo e disse-lhe para fazer o que achasse melhor. Bem, isso  tpico. Tpico! Ele sempre faz exatamente 
o oposto do que eu fao. 
    - Annie, acalme-se. 
    - Achei realmente, quando ele no apareceu ontem para o ensaio, que iramos ter sorte.  
    - Dawn no pensou assim- observou Deb, calma, - E voc sabe que ela nunca duvidou dele, nem por um minuto, "Papai vai aparecer", afirmou, ontem. 
    - Mais uma prova de que ela no sabe o que  bom para ela .  - resmungou Annie. - E a minha irm? Ela j apareceu? 
    - No, ainda no. 
    Annie franziu o cenho. Espero que Laurel esteja bem. No  do feitio dela chegar atrasada. 
    - J liguei para a estao de trem. Houve um atraso, no sei o motivo. Voc precisa se preocupar  com o pastor. Ele tem outro casamento daqui a duas horas, 
l em Easton. 
    Annie suspirou e alisou a saia semilonga do vestido de chiffon verde-claro. 
    - Acho que no h sada. Certo, vamos... O qu? 
    - No quer dar uma olhada no espelho primeiro? 
    Annie franziu o cenho, voltou-separa a pia novamente e ficou plida. A maquiagem estava borrada, principalmente no contorno dos olhos verdes. O nariz pequeno 
e ligeiramente empinado exibia um tom rosado e o cabelo ruivo-aIourado, meticulosamente preso pelo cabeleireiro naquela manh, estava arrepiado, como se ela houvesse 
sofrido uma descarga, eltrica. 
    - Deb, olhe para mim! 
    - Estou olhando -- afirmou Deb. - Sempre podemos perguntar  organista se ela conhece a cano Noiva de Frankenstein. 
    - Deixe de brincadeira! Tem uma centena de pessoas esperando l fora. - E Chase, pensou, to inesperada e inexplicavelmente que se espantou. 
    - O que foi agora? 
    - Nada - disfarou Annie. - Quero dizer...  apenas me ajude a reparar esse dano. 
    Deb abriu a bolsinha. 
    - Lave o rosto e deixe o resto comigo - sugeriu, pegando o estojo de maquiagem. 
    Chase Cooper parou sobre os degraus da igrejinha na Nova Inglaterra, tentando parecer pertencer ao local. 
    No era fcil. Nunca se sentira to estrangeiro na vida. 
    Era uma pessoa urbana. Passara a vida toda em apartamentos. 
    Ficara arrasado quando Armie, aps o divrcio, vendeu aquele em que haviam morado e mudou-se para Connecticut, com Dawn. 
    - Stratham? - repetira, a voz precariamente controlada. -. Onde fica isso? Nem achei no mapa.  
    - Tente um desses atlas grandes, de que voc gosta tanto alfinetara Annie. - Esses que voc usa para escolher em que , parte do pas vai se esconder. 
    - J lhe disse milhes de vezes - disparara Chase. - Eu no tenho escolha. Se no levar adiante os negcios pessoalmente, nada d certo. No se pode sustentar 
mulher e filhos assim. 
    - Bem, agora voc no precisa mais me sustentar - conclura Annie, erguendo a cabea. - Recusei a penso alimentcia, lembra-se? 
    - Porque voc foi cabea-dura, como sempre. Raios, Annie, no pode vender o apartamento! Dawn cresceu aqui.  
    - Posso fazer o que quiser - rebatera ela. - O apartamento  meu. Foi parte do acordo. 
    - Mas  o nosso lar, rios! 
    - No se atreva a gritar comigo! - vociferara, embora Chase no estivesse gritando. Ele jamais erguera-lhe a voz. - E no  o nosso lar, no mais.  s um monte 
de quartos, separados por paredes de tijolos, e eu odeio este apartamento. 
    - Odeia? - repetira Chase. - Odeia o lar que constru com minhas prprias mos? . 
    - Voc construiu um prdio de vinte e quatro andares que, por acaso, abriga o apartamento que foi nosso e com o qual voc ganhou muito dinheiro. E, se quer saber, 
sim, eu odeio este apartamento. Desprezo-o e mal posso esperar para me livrar dele. 
    Oh, sim, pensara Chase, desejando, pela primeira vez em anos, no ter deixado de fumar. Annie pretendia vender o apartamento e mudar-se com Dawn para esse... 
esse pontinho no mapa, imaginando, sem dvida, que seria o fim das visitas semanais dele  filha. 
    Errado. Nos primeiros anos da separao, ele percorrera os duzentos e tantos quilmetros semanalmente, sem falhar uma vez sequer. Adorava sua garotinha e ela 
o adorava, e Annie jamais mudaria isso. Semana aps semana, ele fora a Stratham e renovara sua ligao com a filha. E, tambm, vira a esposa, ou melhor, a ex-esposa, 
construir uma nova vida para si mesma. . 
    Annie fizera novas amizades, montara um negcio pequeno e bem-sucedido e segundo Dawn, tinha namorados tambm. Ora, ele no se importava. Afinal, ele tinha namoradas, 
no tinha? Tantas quantas quisesse, todas da alta-roda. Aquilo era um dos privilgios do solteirismo, especialmente quando se era o presidente de uma construtora 
prspera e de projeo nacional. 
    Eventualmente, entretanto, ele parara de ir a Stratham. Era mais fcil assim. Dawn estava crescida o suficiente para tomar um trem ou avio sempre que quisesse 
v-lo. E, cada vez que se encontravam, ela lhe parecia mais linda. Tornara-se uma moa encantadora. 
    Chase contraiu os lbios. Mas ainda no crescera o bastante para se casar. Bolas, claro que no! Dezoito anos? E j ia se entregar a um homem? 
    Era culpa de Annie. Se ela parasse de se preocupar s com a prpria vida e pensasse na filha, ele no estaria ali, com aquela roupa desconfortvel, esperando 
para entregar sua garotinha a um rapaz que ainda mal se barbeava. 
    Bem, isso no era bem verdade. Nick tinha vinte e um anos. 
    Chase gostava do futuro genro. Nick, ou melhor, Nicholas, era um timo rapaz, de boa famlia; com um futuro slido  sua frente. Puderam conhecer-se quando ele 
e Dawn o acompanharam numa viagem de uma semana  Flrida, onde sua construtora erguia um novo empreendimento. Os garotos ficaram se olhando o tempo todo, como se 
o resto do mundo no existisse, e esse era o problema. Existia, e a filha no vira o suficiente do mundo para saber o que estava fazendo. 
    Ainda tentara conversar com a filha sobre esse aspecto, mas ela estava determinada. No fim, no teve escolha. Dawn era maior de idade. No precisava de seu consentimento. 
E, como ela apresssara-se em dizer, Annie j externara a opinio de que o casamento era uma boa idia. 
    Ento, eliminara as objees, dera um beijo em Dawn, apertara a mo de Nick e os abenoara, como se isso valesse alguma coisa. 
    Preocupava-se com o futuro da filha. Casamento, especialmente para os jovens, no era nada alm de uma desculpa legtima para a insanidade hormonal. 
    S esperava que Dawn e o noivo, fossem exceo  regra. - Senhor? 
    Chase olhou ao redor. Um rapaz que mal tinha idade para se barbear estava junto  porta da igreja. Pela roupa, devia ser um dos padrinhos. 
    - Mandaram dizer que eles esto prontos para comear, senhor. Senhor, pensou Chase. Ainda lembrava-se de quando chamava os homens mais velhos de "senhor". Era 
muito mais um eufemismo para ''homem velho" do que mostra de respeito. Era como sentia-se, de repente. Como um homem velho. 
    - Senhor? 
    - Eu ouvi! - declarou Chase, irritado e, ento forou-se a sorrir. - Desculpe-me - manifestou. - Estou nervoso como todo pai de noiva, acho. 
    Ainda sorrindo, mas de cenho franzido, bateu nas costas do rapaz e ultrapassou-o, entrando na nave fria e escura. 
    Annie ficou controlando a emoo durante a cerimnia. 
    Dawn estava linda,uma princesa de contos de fada materializada. Nick estava bonito o bastante para provocar lgrimas nos poucos que ainda no estavam emocionados. 
Embora os familiares do noivo, parados ao lado dele, parecessem muito controlados. 
    Chase tinha a mesma expresso. No apenas mantinha os olhos secos como sua expresso era inflexvel. S sorrira uma vez, para Dawn, ao entreg-Ia ao noivo. 
    Depois, tomara seu lugar ao lado de Annie. 
    - Espero que saiba o que est fazendo - resmungara, ao posicionar-se perto dela. 
    Annie sentiu cada msculo do corpo enrijecer. Era bem dele falar daquele jeito naquele lugar. E culp-Ia de qu? Pelo fato de a cerimnia no estar acontecendo 
em uma catedral? Pelo fato de no haver espao para convidar todos os clientes importantes e transformar o evento em uma oportunidade de negcios? 
    Talvez ele achasse que o vestido de Dawn estava fora de moda, ou que o arranjo floral, de autoria dela, era provinciano demais. Nada a surpreendia. Para Chase, 
ela nunca fazia nada certo. Podia v-lo com o canto do olho, parado a seu lado; ereto, alto e inequiivocamente masculino. 
    - Papai no fica um charme com roupa de gala?! - comentara Dawn, entusiasmada. 
    Annie sentiu um msculo do rosto se contrair. Para quem gostava de homens daquele tipo; supunha que ele estivesse mesmo charmoso. Mas ela no era adolescente 
e no ficava com o corao acelerado ao ver um homem atraente, bonito, com corpo de atleta. 
    Houve um tempo em que se perturbara com isso, entretanto. 
    Oh, sim, houve um tempo em que apenas ficar perto dele, sentindo o brao forte roando em seu ombro, em que o leve perfume da colnia masculina seria suficiente 
para, para... 
    Bang!  
    Annie sobressaltou-se. A porta dos fundos da igrja abriu-se. 
    Os convidados voltaram-se, surpresos. O pastor fez uma pausa, e olhou para o frm do corredor, assim Como todo mundo, incluindo Dawn e Nick. 
    Uma pessoa estava parada junto  porta. Aps um momento, um homem levantou-se e fechou a porta. A figura avanou. 
    Annie soltou um suspiro de alvio. 
    -  Laurel - sussurrou Annie. - Minha irm. Estou aliviada por ela ter chegado. 
    -  tpico dos Bennett - resmungou Chase, como o canto da boca. 
    Annie ruborizou. 
    - Perdo? 
    - Voc me ouviu. 
    - Com certeza ouvi, e... 
    - Me - disparou Dawn. 
    Annie ruborizou mais. - Desculpe-me. 
    O pastor pigarreou e retomou a cerimnia: - Se h algum aqui que saiba de algum motivo que impea o matrimnio entre Nicholas Skouras Babbitt e Dawn Elizabeth 
Cooper... 
    Dali a pouco, a cerimnia estava encerrada. 
    Era interessante ser o pai da noiva quando a me da noiva no era mais sua esposa. 
    Dawn insistira em ter os dois pais sentados  mesa principal, a seu lado. 
    - Vai fazer isso por mim, no vai, papai? - suplicara. Quero dizer, se no se importar em ficar sentado ao lado de mame por algumas horas, certo?  
    - Fao tudo o que quiser, querida - respondera Chase. 
    E estava falando srio. Era um homem civilizado e Annie, apesar dos inmeros defeitos, era uma mulher civilizada. Estavam divorciados havia cinco anos. As feridas 
j estavam cicatrizadas. Com certeza, seria capaz de sorrir e conversar com ela por algumas horas. 
    Foi o que imaginou, mas a realidade era bem diferente. No calculara como se sentiria excitado no altar, com Annie a seu lado, mais linda do que nunca naquele 
vestido verde-claro. Seus cabelos avermelhados e sedosos emolduravam um rosto ainda liso, com aquele narizinho rosado que ele sempre adorara. Ela 
    fungara e soluara durante toda a cerimnia. Claro que ele tambm sentira um n na garganta, uma ou duas vezes. Na verdade, quando o pastor comeou a falar de 
amor para sempre, sentira vontade de abra-Ia e consol-Ia, dizer-lhe que no estavam perdendo uma fllha, mas, sim, ganhando um fllho. 
    Mas era mentira. Estavam perdendo uma fllha e era tudo culpa de Annie. 
    Na fila para receber os cumprimentos, portaram-se como gmeos 
    siameses, ele to mal-humorado quanto um leo com um espinho na pata. 
    - Vocs dois, sorriam - censurou Dawn, e eles obedeceram, embora o sorriso de Annie fosse to forado quanto o dele. 
    Finalmente, seguiram para a festa no buf em Stratham em carros separados. Ao chegarem, sentaram-se um ao lado do outro  mesa sobre a plataforma. 
    Chase sentia o sorriso congelado no rosto. Devia estar horrvel, pois Dawn ergueu o cenho, desaprovadora, ao encar-Io. 
    Certo, coopero controle-se. Voc sabe como conversar amenidades com estranhos. Com certeza, pode entabular uma conversa com sua ex-esposa. 
    Olhou para Annie e pigarreou. 
    - Ento, como est? - indagou, simptico. Annie voltou o rosto e encarou-o. 
    - Desculpe-me - manifestou-se, educada. - No entendi bem. Est falando comigo? 
    Chase estreitou o olhar. Com quem mais ele estaria falando? Com o garom que se inclinava para servir-lhe champanhe? Mantenha-se calmo, reforou, e abriu um 
sorriso. - Perguntei como est voc. 
    - Muito bem, obrigada. E voc? 
    Muito bem, obrigada... Que tom afetado era aquele? 
    - Oh, no posso reclamar! - Chase forou outro sorriso e aguardou que Annie prolongasse a conversa. Como ela no se manifestou, teve que tentar mais uma vez. 
- Para dizer a verdade, no sei se Dawn comentou, mas estamos acertando um grande contrato. 
    - Ns quem? - investigou ela, num tom que congelaria at um esquim. 
    - Bem, a Construtora Cooper.  Ns no empenhamos nesse negcio... 
    - Que timo! - cortou ela, e virou o rosto. 
    Chase sentiu a presso arterial escapar ao controle. E essa era a paga que recebia por tentar ser educado. Annie no apenas tratava-o como a um ser desprezvel, 
como mantinha-se ereta, esticando o pescoo, olhando para todos, menos para ele. 
    De repente, um sorriso verdadeiro surgiu no rosto dela. 
    - Ei? - chamou ela, suave. - Oi, tudo bem?- indagou, acenando. 
    Chase viu um sujeito desconhecido numa mesa prxima acenar de volta. 
    - Quem  o imbecil? - questionou, sem pensar. 
    Annie nem olhou para ele. Estava ocupada demais flertando com o imbecil, sorridente com todos os dentes  mostra. 
    - Aquele imbecil  Milton Hoffman, professor de ingls na universidade - informou, convencida. 
    O tal professor de ingls levantou-se da mesa e foi driblando os demais convidados at chegar  plataforma onde eles estavam. Alto e magro, Milton Hoffman estava 
de azul e uma gravata Qorrboleta. Chase achou-o sem graa como um cadver. 
    - Annie! - saudou Hoffman. - Annie, minha querida. Annie estendeu a mo. Hoffman tomou-a com sua prpria mo plida e levou-a aos lbios. - Foi uma bela cerimnia. 
    - Obrigada, Milton. 
    - A decorao estava perfeita. 
    - Obrigada, Milton. 
    - As msicas, as flores... tudo estava maravilhoso. 
    - Obrigada, Milton. 
    - E voc est um encanto. 
    - Obrigado, Milton - intrometeu-se Chase. 
    Annie e o professor olharam-no contrariados. Chase sorriu, mostrando todos os dentes. 
    - Ela est, no ? - comentou Chase. - Muito linda quero dizer. 
    Annie olhou para ele, cuspindo fogo, mas Chase ignorou a advertncia. Inclinou-se para ela e passou o brao ao redor de seus ombros. 
    - Adoro esse decote em voc, querida, destaca o que tem de melhor... - Fingiu trocar um olhar cmplice com Hoffman. Alguns homens sentem-se mais atraidos pelas 
pernas de uma mulher erto, Milty? Mas eu sempre preferi... 
    - Chase! - Annie ficou muito ruborizada. 
    Hoffman, com seus culos de aro de tartaruga, piscou uma vez. - Voc deve ser o marido de Annie. 
    - Voc  rpido, Milty. Preciso reconhecer. 
    - Ele no  meu marido - protestou Annie, desvencilhando-se do abrao de Chase. - Ele  meu ex-marido. Meu antigo marido. Aquele que um dia foi meu marido... 
Francamente, Chase, se eu nunca mais o vir, serei a mulher mais feliz do mundo. - Sorriu sedutoramente para Hoffman.- Espero que esteja disposto, Milton, pois pretendo 
danar a tarde inteira. 
    Chase sorriu. Seus olhos adquiriram um brilho malvolo. 
    - Ouviu isso, Milt? - disse, animado. Sentiu um prazer primitivo ao ver Hoffman empalidecer ainda mais; Annie cerrou os dentes. 
    - Chase, j chega! 
    Chase inclinou-se sobre a mesa. 
    -  uma danarina maravilhosa, a nossa Annie. Mas se ela beber um pouquinho a mais de champanhe, tome cuidado. Certo, meu bem? 
    Annie abriu e fechou a boca sem conseguir articular qualquer som. 
    - Chase... - sussurrou, furiosa, 
    - Qual  o problema? Milt  um velho amigo seu, certo? No precisamos ter segredos para ele, concorda, meu bem? 
    - Pare de me chamar assim! 
    - Parar de cham-Ia como? 
    - Voc sabe - alterou-se Annie. - E pare de mentir. Nunca fiquei bbada na minha vida. 
    Chase curvou os lbios de forma sagaz. 
    - Ora, doura! No me diga que se esqueceu da noite em que nos conhecemos. 
    - Estou avisando, Chase! 
    - Ali estava eu, um calouro da universidade, cuidando da prpria vida e danando com minha namorada no baile do dia dos namorados do colgio... 
    - Voc sabia o tempo todo - disparou Annie. Chase sorriu. 
    - Devia saber, meu bem. De qualquer forma, l estava eu, fazendo a brincadeira da batata, quando vi Annie sair correndo pela porta, com a mo no estmago, como 
se tivesse comido uma bacia de mas verdes. 
    Annie voltou-se para Milton Hoffman. 
    - No foi bem assim. O meu par tinha reforado o meu ponche. Como podia saber... 
    - ...e agora - anunciou uma voz oleosa e amplificada. - O sr. e a sra. Nicholas Babbitt vo danar pela primeira vez como marido e mulher. 
    As pessoas comearam a aplaudir quando Nick ofereceu o brao a Dawn e levou-a at a pista. Eles se entreolhavam com intensidade. 
    Annie estava constrangida. - Milton... 
    - Est tudo bem - adiantou-se Hoffmim. - Hoje  um dia da famlia, Annie. Eu entendo. - Quis pegar-lhe a mo, mas deteve-se e recuou. - Eu lhe telefono amanh. 
Foi... interessante conhec-lo, sr. Cooper 
    Chase sorriu educadamente. 
    - Chame-me de Chase, por favor. No h necessidade de tanta formalidade, considerando o que temos em comum. 
    Annie no sabia o que mais desejava, se baterem Chase por seu comportamento ou esbofetear Milton Hoffman por se deixar atingir to fcil. Levou s um segundo 
para decidir que Chase merecia mais. Olhou-o enquanto Hoffman voltava para seu lugar. 
    - Seu verme - murmurou, indignada. Chase suspirou. 
    - Annie, oua...
    - No. No, oua voc. - Ela apontou um dedo trmulo na direo de Chase. - Eu sei o que voc est tentando fazer. 
    Sabia? Chase balanou a cabea. Ento, - ela sabia mais do que ele. No havia razo no mundo que justificasse seu comportamento cafajeste, minutos antes. E se 
Annie estivesse tendo um caso com algum cara? E se o cara fosse do tipo que desmaiava ao ver um rato? E se, de repente, ele comeasse a imaginar Annie em sua cama? 
    Ela podia fazer o que quisesse, com quem quisesse. Com certeza, no era de sua conta. 
    - Voc est me ouvindo? - indagou ela. 
    Chase olhou para Annie. Ela estava vermelha de raiva. O rubor englobava as mas do rosto e incidia sobre o nariz coberto de sardas douradas. Lembrava-se de 
como costumava beijar os pontos dourados aps terem feito amor. 
    - Eu sei o que est planejando, Chase. Voc est tentando arruinar o casamento de Dawn s porque eu no fiz do jeito que voc queria! 
    Chase ergueu o cenho. - Voc enlouqueceu? 
    - Oh, vamos l! - A voz dela saa emocionada devido  raiva. 
    - Voc queria um grande casamento em uma igreja monumental, assim poderia convidar todos os seus amigos esnobes. 
    - Voc ficou doida! Eu nunca... 
    - Fale baixo! 
    - Estou falando baixo.  voc que est... 
    - Deixe-me dizer-lhe uma coisa, Chase Cooper. Este casamento est acontecendo exatamente do jeito que Dawn queria. 
    - E est muito bom assim. Se fosse por voc, nossa filha acabaria se casando no campo com os ps descalos... 
    - Oh, isso seria pssimo para a imagem do sr. Chase Cooper! 
    - Ao som de msicas pags executadas por algum msico extico! - completou ele. 
    - Ao som de uma ctara - corrigiu Annie. - Aprenda, Cooper, embora voc deva saber muito mais sobre assuntos stiros do que sobre instrumentos musicais. 
    - Vamos voltar a isso? - desdenhou Chase, e Annie ficou mais enrubescida. 
    - No, no "voltamos" a nada. At onde sei... Ambos ouviram s o fim do anncio: 
    - ...e os pais da noiva, sr. e sra. Chase Cooper! 
    Annie e Chase olharam estupefatos para a banda musical. O lder sorria-lhes e os convidados, incluindo aqueles que pareciam meio surpresos com a iniciativa, 
comearam a aplaudir. 
    - Vamos, Annie e Chase! - O lder da banda alargou o sorriso. 
    - Venham para a pista para acompanhar os noivos! 
    - No vamos - grunhiu Chase, com os dentes cerrados. 
    - O homem ensandeceu - disparou Annie. 
    Mas os aplausos se intensificaram. Annie olhou desesperada para a filha, que apenas deu de ombros. 
    Chase afastou a cadeira e ergueu a mo. - Bem, vamos logo acabar com isso. 
    Annie ergueu o queixo. Levantou-se rgida e aceitou o brao que ele lhe oferecia. 
    - Eu o odeio de verdade; Chase. 
    - O sentimento, senhora,  mtuo. 
    Com os olhares cheios de raiva, Annie e Chase respiraram funndo, colocaram sorrisos civilizados nos rostos e seguiram para a pista de dana. 
    
    CAPTULO DOIS
    
    - Que mulher miservel! Eis no que se transformara sua ex-esposa durante os anos em que estiveram casados. 
    Na pista de dana, Chase conduzia Annie rigidamente nos braos, afastados o bastante para satisfazer at a formal srta. Elgar, coordenadora da festa de formatura 
da turma de Annie, sempre de olho nos casaizinhos mais empolgados ao som de msicas lentas. 
    No que a mulher austera aprovasse a brincadeira da batata, mas ela parecia considerar que aqueles rodopios malucos mais seguros. 
    Mesmo aps todos aqueles anos, Chase sorria ao lembrar-se. 
    Seguro? Um bando de garotos excitados balanando os quadris uns contra os outros? E, no importava o que a velha bruxa dizia, a dana lenta, de rosto colado 
e abraos apertados, continuava do mesmo jeito, nos corredores, nas escadas, at no estacionamento, onde a msica chegava em meio  morna brisa primaveril. 
    E ele acabara levando Annie para o estacionamento, onde danaram, agarradinhos, sozinhos na escurido e to loucos um pelo outro aps quatro meses de encontros 
que nada mais importava. 
    Naquela noite fizeram amor pela primeira vez, sobre um velho cobertor de retalhos que ele levara no carro e que estendera sobre a grama macia e fresca no mirante 
da cidade. 
    - Devamos parar - sussurrava ele, com uma voz to rouca que parecia pertencer a outra pessoa, mas no deixou de baixar o zper do vestido de Annie e desnud-Ia, 
expondo-a a sua viso, lbios e carcias; 
    - Devamos... - concordava, acariciando-o, desfazendo o n da ridcula gravata-borboleta. Trmula, conseguiu tirar-lhe o palet e desabotoar-lhe a camisa, para 
poder sentir o calor de seu trax. 
    Chase balanou a cabea, zonzo. As lembranas o haviam envolvido como uma neblina repentina. Apertou a mo em torno da de Annie e puxou-a para mais perto. 
    - Chase! - protestou ela. 
    - Shh - sussurrou ele, os lbios junto a seus cabelos. 
    Annie permaneceu rgida por um segundo, ento, suspirou, apoiou a cabea contra o ombro dele e entregou-se  msica e s lembranas que tambm a assaltavam. 
    Era to bom estar ali, nos braos de Chase. 
    Quando haviam danado llssim pela ltima vez? Descontavam-se os inmeros bailes de caridade a que Chase comparecera querendo "fazer uns contatos". Quando haviam 
danado pelo simples prazer de bailar suavemente nos braos um do outro? 
    Annie fechou os olhos. Sempre danaram bem juntos, mesmo nos velhos tempos do colgio em Taft. Todos aqueles bailes de formatura, as festinhas de ltima hora 
na casa de algum colega nas sextas-feiras, quando Chase voltava da universidade, as reuunies promovidas pela fraternidade de Chase nas frias, quando ela podia 
ir sozinha com ele. As formalidades da escola, com a srta. Elgar circulando entre os casais, tentando manter os pares a uma distncia segura um do outro. 
    E a noite da formatura, quando eles finalmente foram at o fim, aps meses de beijos ardentes e carcias que os deixavam trmulos um nos braos do outro. 
    Annie sentiu o corao se acelerar. Lembrou-se de Chase leevando-a para o estacionamento, onde danaram... oh, to lentamente, ao som distante da msica que 
vinha do ginsio. Lembrou-se de como Chase a beijara, despertando-lhe uma necessidade to poderosa que ela mal conseguia pensar. Sem dizer nada, pegaram o carro 
e foram at o mirante da cidade, sentados to juntos no banco, que at poderiam ser tomados por uma nica pessoa.  
    Lembrava-se da maciez do cobertor que haviam estendido sobre a grama e ento, a rigidez maravilhosa do corpo de Chase junto ao seu. 
    - Eu te amo tanto - declarou ele. 
    - Sim... sim... - murmurava ela, entre suspiros. 
    No deviam ter feito. Ela sabia disso, mesmo, assim, continuou desabotoando-lhe a camisa e acariciando-o. Parar seria morrer. 
    Oh, e quando ele se deitou sobre seu corpo nu... O cheiro dele, o gosto da pele... E aquele momento maravilhoso em que ele a penetrou. Em que a preencheu. Em 
que se tornou parte dela, para sempre. 
     Exceto que no tinha sido para sempre. 
    Annie enrijeceu-se junto aos braos de Chase. 
    Tinha sido sexo e, aps muitas peripcias, incluindo o casamento, separaram-se. Chase agora era o ex. No era mais seu marido. No era mais o rapaz por quem 
ela se apaixonara, nem o homem que gerara Dawn. Era um estranho, que ficara mais interessado nos negcios do que em voltar para casa, para a esposa e a fIlha. 
    Mais interessado em dormir com uma secretria de vinte e dois anos do que com a esposa, de quem havia enjoado. 
    Annie sentiu o corao enregelado. Deixou de acompanhar os passos de Chase e afastou-se. 
    - Basta - anunciou. 
    Chase piscou, pois estivera de olhos fechados. Estava ruborizado, parecia um homem rudemente retirado de um sonho. 
    - Annie, oua... 
    - A dana por imposio acabou, Chase. Apista est cheia de gente. 
    Ele olhou ao redor. Annie tinha razo. Estavam na borda da pista, agora tomada por casais. 
    - J cumprimos nosso papel nessa farsa. Agora, se no se importa, reservei o meu caderno de danas todinho para Milton Hoffman. 
    Chase fechou a expresso. 
    - Claro - concordou, educado. - Quero conversar com algumas pessoas tambm. Vejo que mudou de idia e convidou alguns de meus velhos amigos e no apenas os seus. 
    - Certamente.- O sorriso de Annie poderia ter transformado gua em gelo. - Alguns deles so meus amigos tambm. Alm disso, sabia que precisaria de algo para 
mant-Io ocupado, considerando que voc fez o grande sacrifcio de no trazer nenhuma amiguinha. Ou voc est na entressafra, no momento? 
    Chase nunca acertara com urna mulher na vida: Raios, ele nunca sequer tivera vontade de acertar! Homens que batiam em mulheres eram desprezveis. Mesmo assim, 
apenas por um instante, desejou que Annie fosse homem, assim poderia tirar aquela expresso de desdm de seu rosto. 
    Escolheu a segunda alternativa: 
    - Se voc est perguntando se h alguma mulher especial em minha vida, a resposta  sim. - Ele fez uma pausa para aumentar o efeito e, ento, prosseguiu para 
o grande final. - E agradeceria se observasse a maneira como se dirige  minha noiva. 
    Era como ver um edifcio implodir depois de os operarios depositarem as bananas de dinamite. A expresso de desdm de Annie desapareceu e ela ficou boquiaberta. 
    - Sua... sua...? 
    - Noiva - repetiu Chase. No era uma mentira total. J estava saindo com Janet havia dois meses e ela no fora nada sutil quanto ao que queria do relacionamento. 
- Janet Pendleton. A filha de Ross Pendleton. Voc a conhece? 
    Conhec-Ia? Janet Pendleton, herdeira da fortuna Pendleton? 
    A loira de olhos azuis sempre presente nas colunas sociais dos jornais? A garota conhecida tanto por sua competncia na vice-presidncia da Pendleton quanto 
por ter recusado uma oferta de milhes de dlares para emprestar sua beleza clssica a uma emmpresa francesa de cosmticos? 
    Por uma mera frao de segundo, Annie sentiu como se o cho estivesse se abrindo sob seus ps. Ento, endireitou-se e esboou um sorriso. 
    - No andamos nas mesmas rodas, lamento. Mas sei quem ela , claro.  bom ver que agora anda preferindo mulheres na casa dos trinta anos. J contou a Dawn? 
    - No! Quero dizer, no, no houve tempo. Eu... eu pensei em esperar at que ela e Nick voltem da lua-de-mel.  
    - Milton. A est voc. - Annie estendeu-se e agarrou Milton Hoffman pelo brao. Tinha quase certeza de que ele pretendia passar por ela e Chase sem ser notado 
ao dirigir-se ao buf, mas ela nunca precisara tanto de um apoio quanto agora. - Milton, meu ex acaba de me contar uma novidade. 
    Hoffman olhou para Chase, cauteloso por trs dos culos de aro de tartaruga. 
    - Mesmo? - indagou ele. - Que bom! 
    - Chase vai se casar novamente. Com Janet Pendleton. 
    Conseguiria manter o sorriso? - No  timo? Parece que o romance est no ar: Dawn e Nick. Chase e Janet Pendleton... Levantou o rosto e olhou lnguida para 
o rosto comprido e ossudo de Milton. - E ns. 
    Hoffman engoliu em seco, quase deslocando a gravata-borboleta. 
    Pedira Anne Cooper em casamento havia apenas uma semana. Ela dissera o quanto gostava dele e o admirava, de quanto apreeciava sua companhia e sua ateno: Dissera 
tudo, menos sim. 
    Ele olhou para o ex-marido dela. Chase Cooper herdara a construtora do pai e usara seu grau de engenheiro e msculos para transform-Ia em uma empresa de projeo 
nacional. Engoliu em seco mais uma vez. Cooper parecia estar com os msculos ainda em ordem. Naquele exato momento, o homem parecia querer usar esses msculos para 
pulveriz-Io. 
    - Chase? - chamou Annie, provocando. - No vai nos felicitar? 
    - Claro - concordou Chase, e enfiou as mos nos bolsos para no mostrar a inteno. - Desejo-lhe o melhor, Annie. A voc e ao seu cadver, ambos. 
    Annie deixou de sorrir. 
    - Voc sempre sabe o que dizer, no , Chase? Afastou-se arrastando Milton na direo do buf. 
    - Anne - sussurrou Milton. - Anne, minha querida, no fazia idia... 
    - Nem eu - sussurrou Annie, e sorriu com tanta vontade que ele imaginou que as lgrimas em seus olhos eram de felicidade e no por sentir um vazio no corao. 
    Casar, pensou Chase. A sua Annie ia se casar com aquele imbecil. Com certeza, ela j tivera um gosto mais apurado. Pousou o copo vazio no balco. 
    - Mulheres! - reclamou. -  ruim com elas, pior sem elas. O garom sorriu educadamente. 
    - Sim, senhor? 
    - Por favor, traga outro Bourbon e... 
    - gua e um cubo de gelo. Eu me lembro. 
    Chase olhou para o garom. 
    - Est tentando me dizer que j bebi demais? O garom sorriu de forma ainda mais educada. 
    - Daqui a pouco, ter se excedido, sim, senhor. Lei estadual, como sabe. 
    
    Chase contraiu os lbios. 
    - Quando tiver bebido demais, com certeza notificarei voc. 
    Por enquanto, faa uma dose dupla. - Chase? 
    Ele voltou-se. Na pista, as pessoas estavam se alinhando para executar a dana da moda. Outros ainda estavam deleitando-se com a variedade de pratos refinados 
que Annie encomendara e pelos quais pagaria sozinha, uma vez que recusara a contribuio dele. 
    - No tenho a inteno de pedir-lhe que pague por nada comunicara friamente, quando ele telefonou para dizer-lhe que no queria que ela poupasse nos preparativos. 
- Dawn  minha filha, minha empresa de projetos paisagsticos est bem e no preciso de nenhuma ajuda sua. 
    - Dawn  minha filha tambm - desdenhara Chase mas, antes que tivesse acabado de falar, Annie j tinha desligado. 
    Ela sempre fora boa em ficar com a ltima palavra, bolas. Hoje no, entretanto. Ele conseguira. E a expresso de Annie quando ele disparara a notcia sobre seu 
noivado com Janet tornara a vingana ainda mais doce. 
    - Chase? Voc est bem? 
    A quem queria enganar? No ficara coma ltima palavra daquela vez, tampouco. Annie conseguira. Como podia? Como podia se casar com um camarada sem graa daqueles... 
    - Chase, qual e o problema? 
    Chase piscou. Era David Chambers, alto, olhos azuis, com o mesmo cabelo amarrado em rabo-de-cavalo de doze anos antes, quando o contratara como seu advogado 
pessoal. 
    Deu uma risada nervosa. 
    - David! - Estendeu a mo, mudou de idia e agarrou os ombros do advogado. - Que bom v-Io! Como vai? 
    Chambers sorriu, deu um abrao em Chase e recuou para avali-Io. 
    - Estou timo. E voc? Est bem? 
    Chase pegou a bebida e tomou metade de uma s vez. - Nunca estive melhor. O que vai querer? 
    Chambers olhou para o garom. 
    - Usque, um malte s, se tiver, com gelo. E um copo de vinho branco, por favor. 
    - No me diga - deduziu Chase, erguendo o canto do lbio. 
    - Est com uma moa. Acho que a onda do amor pegou voc tambm. 
    - Eu? - David riu. - O vinho  para uma moa que est  minha mesa. E quanto a onda de amor... J superei, lembra-se? Um casamento, um divrcio... no, Chase, 
eu no. Nunca mais, no nesta vida! 
    - Sei. - Chase segurou o copo. - O que acontece? Voc se casa com uma mulher e ela se transforma em outra pessoa aps alguns anos. 
    - Concordo. Casamento  fantasia de mulher. Prometem qualquer coisa para agarrar voc e ento se fazem de desentendidas quando voc espera que elas cumpram o 
acordo. - Quando o garom colocou o copo de usque no balco, ergueu-o e tomou um gole. - Eu entendo que um homem precisa de uma arrumadeira, uma cozinheira e uma 
boa secretria. De que mais ele precisa? - De nada - declarou Chase. - De mais nada. 
    O garom pousou a taa de vinho  frente de David, que pegou a bebida. Voltou-se e olhou pelo salo. Chase acompanhou seu olhar at avistar, em uma das mesas, 
uma morena linda, distrada, sentada sozinha, em atitude apropriada. 
    David sentiu um msculo do maxilar se agitar. Tomou outro gole do usque. 
    - Infelizmente, h mais um aspecto a considerar. E  isso exatamente que deixa pobres-coitados como eu e voc em maus lenis. 
    Chase pensou na sensao de ter Annie nos braos na pista de dana havia pouco. 
    - Exatamente - concordou Chase, e ergueu o copo. - Bem, voc e eu entendemos! Durma com elas e as esquea em seguida, eu diria. 
    David riu e brindou com Chase. - Vou beber a isso. 
    - A qu? O que os rapazes esto tramando aqui sozinhos? 
    Os dois homens se voltaram. Dawn, radiante em renda branca e com Nick a seu lado, estava vindo na direo deles. 
    - Papai - saudou ela, beijando-lhe o rosto. - E sr. Chambers. Estou to contente por terem vindo. 
    - Eu tambm. - David estendeu a mo para o noivo. - Voc  um homem de sorte, fIlho. Tome conta dela. 
    Nick assentiu enquanto cumprimentavam-se. - Pretendo, senhor. 
    Dawn beijou Chase novamente. 
    - Circulando, papai.  uma ordem. 
    Chase ergueu o copo. Os noivos se afastaram e ele suspirou. -  a nica coisa, boa do casamento. Um filho para chamar de seu. 
    David assentiu. 
    - Concordo. Sempre desejei... - Encolheu os ombros e ento, pegou o copo e a taa de vinho. - Ei, Cooper, se a gente fica tempo demais encostado no balco; acaba 
sentimental. Algum j lhe disse isso? 
    - J - afirmou Chase. - O meu advogado, h cinco anos, quando fomos relaxar aps o processo de divrcio. 
    Os homens sorriram e, ento, David Chambers bateu de leve no ombro de Chase. 
    - Aceite o conselho de Dawn. Circule. H muitas mulheres bonitas e solteiras por aqui, caso no tenha notado. 
    - Para um advogado, s vezes voc tem sugestes muito boas. 
    Que tal a morena  sua mesa?  uma possibilidade? 
    David estreitou o olhar. - , no momento. 
    - Jura? 
    - Juro - confirmou o advogado. Estava sorrindo, mas havia uma expresso no olhar que Chase reconhecia. Sorriu. 
    - Voc no tem jeito! Bem, no se prenda por mim. O que foi que minha filha disse? Circulando.  isso. Vou circular e ver o que est disponvel. 
    Os homens se despediram. Chase acabou a bebida e foi tomar ar fora do salo. 
    Annie chutou os sapatos, ergueu os ps sobre o velho div que vivia querendo jogar fora e respirou fundo. - Bem, misso cumprida. 
    Deb, sentada no sof do lado oposto, assentiu. 
    - Acabado e enterrado. - Apoiou os braos nas costas do sof e tambm tirou os sapatos. - E aposto que est satisfeita.  
    - Satisfeita? - Annie franziu os lbios e emitiu um assobio muito pouco feminino. - Nem chega perto. Aposto que o general Custer teve menos trabalho planejando 
a batalha em Little Bighorn  do que eu com essa festa. 
    Deb arqueou uma sobrancelha escura. 
    - Pssima analogia, se me permite dizer. 
    - Mas nem um pouco exagerada. A logstica do evento foi alm da imaginao. Imagine a sua filha chegando uma noite e anunciando calmamente que vai se casar em 
dois meses e que seria maravilhoso se pudesse ter o casamento com que sempre sonhou? 
    Deb levantou-se, levantou um pouco a saia e descalou a meia-cala. 
    - Minha filha est na onda retr dos anos setenta - comentou, manuseando a pea de nilon. - Se tiver sorte, vai optar por se casarem alguma colina, com flores 
por todos os lados... 
    Annie levantou-se e foi at a cozinha, voltando pouco depois com uma garrafa de champanhe e dois copos de suco. 
    - Ele me acusou de querer aquilo, voc sabe. 
    - Sei o qu? Querer o qu? Quem acusou voc? 
    - Importa-se de tomar champanhe em copos comuns? Sei que devamos usar taas, mas nunca me dei ao trabalho de ir comprar.
     - Podemos tomar at em copos de plstico, por mim. De que estava falando, Annie? Quem a acusou de qu? 
    - Chase. O ex. 
    Annie tirou o arame ao redor da tampa da garrafa e mordiscou o lbio no esforo para soltar a rolha. Quando conseguiu, o champanhe transbordou um pouco, esparramando-se 
sobre o assoalho. Encolheu os ombros e olhou o champanhe cado no ch. 
    - H algumas semanas, ele ligou para falar com Dawn. Eu tive o azar de atender ao telefone. Chase disse que tinha recebido o convite e que estava encantado em 
saber que os meus instintos estavam sob controle e que eu tinha aprimorado a minha capacidade de organizao de eventos. - Estendeu um copo de champanhe  amiga. 
- Controle - repetiu, lambendo os dedos. - E tudo porque, quando nos casamos, eu organizei algumas festas no quintal da casa em que morvamos! 
    - Pensei que tivesse dito que moravam num apartamento. 
    - Depois, mas no naquela poca. Chase conhecia algum que nos conseguiu esse aluguel barato no Queens. 
    Deb assentiu.  
    - Que tipo de festa organizava? 
    - Festas ao ar livre. 
    - Ah, ? - Deb fez urna careta. - Grande coisa! 
    Annie franziu os lbios. - Bem, era inverno. 
    - Inverno? 
    - Veja, o problema era, a casa sendo to pequena, os ratos tomavam conta, e... 
    - Ratos?! 
    Annie largou o corpo no div. 
    - No era bem uma casa, mas naquela poca no tnhamos muito dinheiro. Eu tinha acabado de me formar no colgio e o nico emprego que consegui foi na lanchonete 
local. Chase tinha se transferido para a Universidade Municipal. A bolsa era menor, mas assim ele podia trabalhar alguns dias da semana com o pai. - Suspirou. - 
Ns passvamos por dificuldades financeiras. Creia-me, descobrimos milhares de truques para economizar dinheiro! 
    Deb sorriu. 
    - Incluindo dar festas ao ar livre no inverno. Annie sorriu tambm. 
    - Oh, no era to ruim! Ns acendamos a churrasqueira no quintal, sabe? E eu fazia toneladas de chili e po caseiro. Preparvamos uma garrafa de caf e cerveja 
para os rapazes... - Deixou a voz sumir. 
    - Bem diferente de hoje - observou Deb. Pegou a garrafa e encheu os dois copos novamente. - Caviar, camaro, fil com cogumelos... 
    - Filet de Boeuf Aux Chanterelles, por favor - corrigiu Annie, brejeira. 
    Deb sorriu. 
    - Pardonnez-moi, madame. 
    - Sem brincadeira. Considerando o preo daquilo tudo,  melhor chamar pelo nome francs. 
    - E no deixou que Chase pagasse nem um centavo, certo? 
    - No - afirmou Annie. 
    - Ainda acho que voc perdeu o juzo. O que est tentando provar? 
    - Que eu no preciso do dinheiro dele. 
    - Nem dele? - investigou Deb, suave. Annie olhou-a brava, mas a amiga no se intimidou. - Eu vi vocs na pista de dana. Pareceram-me bem envolvidos por algum 
tempo. 
    - Voc viu o passado se infiltrar no presente. Creia-me, Deb. Essa parte da minha vida est encerrada. No sinto nada por Chase. Nem posso acreditar que senti 
um dia. 
    - Eu entendo. Foi uma viagem nostlgica, humm?! 
    - Exatamente. Conduzida pelo casamento da minha garotinha... - Annie fez uma pausa, engoliu em seco e, ento, derramou-se em lgrimas. 
    - Oh, querida! - Deb saiu do sof e foi sentar-se ao lado de Annie. Envolveu-a pelos ombros e afagou-lhe as costas. - Querida, no chore.  to comum sentir 
alguma coisa pelo ex-marido, sabe. Especialmente quando ele  bonito como Chase. 
    - Ele vai se casar - soluou Annie. 
    - Chase? 
    - Com Janet Pendleton. 
    - Quem ? 
    -  s uma mulher mais nova do que eu, rica, linda, maravilhosa e inteligente. 
    - Eu j a odeio. - Deb tomou Annie pelo queixo e forou-a a encar-Ia. - Tem certeza? 
    - Ele me disse. - Annie recostou-se e tirou um leno do decote. 
    - Ento, eu disse a ele que ia me casar com Milton. 
    - Milton? Voc diz Milton Hoffman? - Deb raciocinou. No, voc no fez isso! 
    - Por que no? Ele  solteiro, dependente, e  gentil. 
    - Assim como um ursinho de pelcia - comparou Deb, horrorizada. -  prefervel levar um ursinho para a cama a Milton Hoffman. 
    - Oh, Deb, no  justo! - Annie levantou-se. - Um relacionamento  mais do que sexo. 
    - Por exemplo. 
    - Companheirismo. Interesses em comum. Sonhos partilhados. 
    - E isso compensa o resto? 
    - Compensa! - Annie deixou os ombros carem. - No - admitiu. - No  horrvel? Eu gosto do Milton, mas no o amo. 
    Deb soltou um suspiro ao levantar-se. 
    - Obrigada, Senhor! Por um minuto, achei que voc estava perdida. 
    - No, s sou um pouco obcecada por sexo... 
    - Nada disso. O sexo faz parte da vida. 
    - Mas eu usei o coitado do Milton. Agora, vou ter de cham-Io e dizer que no estava agindo corretamente ao apresent-Io a Chase como meu noivo. 
    - Uau! - exclamou Deb, entusiasmada. - Voc com certeza teve um dia cheio. 
    - Um dia de co, quer dizer. 
    - No me mate por dizer, mas acho que deveria repensar tudo isso. Quero dizer, sei que ele vai se casar e tudo, mas talvez voc ainda sinta alguma coisa pelo 
seu ex. 
    - Eu no me importaria se ele estivesse vivendo num monastrio! - O olhar de Annie brilhou. - Eu no sinto "alguma coisa" por ele. Admito que estou preocupada, 
mas  s porque a minha filhota se casou. 
    - Sabe o que dizem, Annie... Ns criamos os filhos para o mundo. 
    Annie guardou o leno no decote, pegou a garrafa de champanhe e foi para a cozinha. 
    - No  a sada dela de casa que me preocupa, Deb.  o fato de Dawn ser muito jovem. Jovem demais. Estou com medo por ela assumir um compromisso assim. 
    - Bem, voc tinha a mesma idade quando se casou... - lembrou a amiga, apoiando-se no batente. 
    Annie suspirou. - Acha que me esqueci disso? Olhe aonde isso me levou. Eu 
    achava que sabia o que estava fazendo, mas acabou dando tudo errado. Era movida a hormnios, no a inteligncia... - O telefone Locou. - Al? 
    - Annie? 
    - Chase? - Annie contraiu os lbios. - O que voc quer? Pensei que tnhamos dito tudo o que tnhamos para dizer um ao outro esta tarde. 
    Do outro lado da cidade, no quarto de hotel, Chase olhava para o rapaz junto  janela. Ele tinha os ombros cados e a cabea inclinada, evidenciando o desespero 
clssico. 
    Chase pigarreou. 
    - Annie... Nick est aqui. Annie franziu o cenho. 
    - Nick? A? O que quer dizer com isso? 
    - Quero dizer aqui, no meu quarto de hotel. 
    - No.  impossvel. Nick est voando para o Hava com Dawn... - Annie ficou plida. - Oh, no... Houve um acidente? Dawn...  
    - No - apressou-se Chase. - Dawn est tima. Nada aconteceu com ela, nem com Nick. 
    - Ento por que... 
    - Ela o deixou. 
    Annie largou-se numa cadeira da cozinha. 
    - Dawn o deixou? - repetiu, estupidamente. Deb olhava para ela, incrdula: - Dawn deixou Nick? . 
    - Deixou. - Chase esfregou a nuca, onde sentia os msculos rgidos. - Eles foram para o aeroporto e despacharam a bagagem. Ento, foram para a sala VIP. Eu comprei 
o carto de scios para que eles pudessem ficar no salo. Sabia que voc no aprovaria, mas... 
    - Raios, Chase, conte-me o que aconteceu! Chase suspirou. 
    - Nick disse que foi pegar caf. Dawn concordou. Mas, quando ele voltou com o caf, ela tinha sumido. 
    - Mas ento ela no o deixou... - declarou Annie-, a mo junto ao corao. - Ela foi raptada! 
    - Raptada? - espantou-se Deb. - Dawn? 
    - Chamaram a polcia? Voc... 
    - Ela deixou um bilhete - informou Chase, cauteloso. Annie ouviu um barulho de papel. - Disse que o considera muito, mas... 
    - Ora, mas... - Annie elevou a voz. - Ela disse que amava Nick! Que era louca por ele. 
    - Mas que o amor apenas no  suficiente - prosseguia Chase. 
    - O amor o qu?  
    - No  suficiente. Ela diz que no tem escolha seno acabar com esse casamento antes que comece. 
    Annie levou as mos aos olhos. 
    - Oh, no - sussurrou. - Parece to sinistro. 
    Chase assentiu; como se Annie pudesse v-Io. 
    - Nick est perdido, assim como eu,  A voz saa rouca de emoo. - Ele a procurou por toda parte, mas no conseguiu encontr-Ia. Se algo aconteceu  nossa garotinha... 
    Annie ergueu a cabea. To suave quanto um sussurro, a porta da frente abriu-se e ento, fechou-se. Passos ecoaram no corredor. 
    - Me?  
    Dawn surgiu  porta da cozinha, ainda trajando a roupa de viagem. Tinha os olhos vermelhos e inchados. - Meu bem? - sussurrou Annie. 
    Dawn deu um sorriso inseguro e ento comeou a chorar. 
    - Oh, mame! - choramingou, e Annie largou o telefone e abriu os braos. 
    A filha correu pela cozinha e enterrou o rosto no colo da me. Deb pegou o telefone do cho. 
    - Chase? 
    - O que est havendo a? - gritou Chase. 
    - Voc e Nick podem parar: de se preocupar - informou Deb. 
    - Dawn est aqui. Acaba de chegar. 
    Chase fez sinal positivo para Nick, que correu para seu lado. - Nossa filha est bem? 
    - Est, mas parece... 
    Chase desligou o telefone e saiu correndo com Nick. 
    
    
    CAPTULO TRS
    
    A lua subia resplandecente no cu quando foi encoberta por nuvens densas. 
    Suspirando, Chase acendeu o abajur ao lado da cadeira e desejou poder se esconder como o satlite natural. Talvez, assim, as pessoas parassem de olhar para ele 
como se tivesse uma soluo para aquela situao impossvel. 
    Situaes impossveis exigiam solues improvveis, e ele no conseguia imaginar nenhuma. A mente parecia entorpecida. Havia poucas horas, era o pai da noiva. 
Agora, era o pai da... como se chamava uma moa recm-casada que abandonara o marido no aeroporto pouco antes de partirem em lua-de-mel dizendo que fora tudo um 
engano? 
    Era uma moa inteligente. Vinte e quatro horas antes, ele teria dado tudo para que Dawn adiasse o casamento at amadurecer um pouco mais. 
    Fechou os olhos, cansado. O problema era que Dawn no adiara o casamento. Casara-se, o que agravava muito o quadro. Agora, no se tratava mais, apenas, de cancelar 
a cerimnia na igreja e dispensar o buf contratado. Dawn e Nick estavam casados seegundo as leis do Estado de Connecticut. 
    Dissolver aquela unio seria muito mais complicado do que teria sido poucas horas antes. E no ajudava em nada o fato de Dawn chorar e dizer que amava Nick, 
mas que no podia, no ia e no devia continuar casada com ele.  
    Chase massageou a nuca para aliviar a tenso. No entendia o que acontecia com a fIlha, a exemplo do pobre Nick. Nem mesmo Annie entendia, podia apostar, embora 
repetisse "eu entendo, querida" sem parar, embalando-a nos braos. 
    - O que voc entende? - indagara a Annie, quando ela voltou do quarto aps convencer Dawn a deitar-se e dormir um pouco. 
    Annie lanou-lhe um olhar severo e disse que no entendia nada, mas era seu dever apoiar a filha naquele momento confuso e difcil. 
    - Droga, Annie! - desabafara, irado. 
    Bastou para alvoroar a todos, que j estavam com os nervos  flor da pele. Nick surgiu aflito, Dawn recomeou a chorar e Annie o xingou de um nome muito feio, 
um que ele nem imaginava que ela conhecesse. 
    - Veja o que voc fez! - repreendera Annie, batendo a porta do quarto de Dawn em sua cara. 
    Chase gemeu. Estava cansado. To cansado. Fazia horas que nenhum som escapava do quarto da filha. Annie e Dawn deviam estar dormindo. Nick tambm dormia, no 
sof da sala. 
    Talvez, se cochilasse por alguns minutos... 
    No conseguia, estava aflito demais. Era tudo de que precisava: mais tenso nos msculos do pescoo. 
    A culpa era daquela cadeira desconfortvel em que estava. Por um minuto, esquecera-se de que no estava no apartamento que partilhara com Annie por tantos anos. 
Ela se livrara de todos os mveis ao comprar aquela casa, decorando-a com velharias, ou melhor, antiguidades, segundo ela. Pois ele no via graa nenhuma naqueles 
sofs mofados, mesas com apoios ridculos,cadeiras sem recosto... 
    - Estrague essa cadeira, Chase Cooper, e vai se ver comigo! Chase endireitou-se. A ex-esposa estava na entrada da saleta. J no estava com o vestido usado no 
casamento, mas de cala jeans e bluso. No lhe parecia de bom humor. 
    Pssimo. Muito ruim mesmo, considerando-se que ela era a maior culpada por aquela situao, em primeiro lugar. Se ao menos no houvesse sido to condescendente. 
Se houvesse se imposto desde o incio, argumentando com Dawn que era cedo demais para se casar... 
    - A cadeira merece um chute - resmungou, mas ficou quieto enquanto Annie ajeitava as almofadas, como se quisesse apagar os vestgios de sua presena ali. - Como 
est Dawn? 
    - Dormindo. - Annie sentou-se na poltrona. - E Nick? Ainda est aqui? 
    - Est dormindo na sala. 
    - Mas est bem? 
    - To bem quanto possvel, considerando os fatos. A nossa filha j lhe contou, exatamente, o que est acontecendo? 
    Annie encarou-o. Ento, passou a mo nos cabelos, afastando os fios rebeldes do rosto. 
    - Que tal um ch? - Sem esperar pela resposta, ela seguiu para a cozinha. - A menos que prefira cafe - ofereceu, acendendo a luz fluorescente. 
    Chase a seguiu. 
    - Ch est bom - informou, piscando ante a claridade repentina. Sentou-se numa banqueta junto ao balco e observou Annie encher uma chaleira com gua e p-Ia 
no fogo. 
    - Ela contou? 
    - Contou o qu? - Annie abriu a porta do armrio, tirou uma caixinha de ch e pousou-a sobre o balco. - Quer um biscoito? Claro, no tenho aquelas roscas horrveis 
de que voc tanto gosta, com toda aquela gelia no meio. 
    - S ch - respondeu Chase, recusando-se a brigar. - Mas o que Dawn disse? 
    Annie fechou a porta do armrio e abriu a geladeira. 
    - Que tal um sanduche? Tem queijo, presunto, po integral. 
    - No, obrigado, no quero nenhum sanduche - declarou Chase. - No quero nada, exceto saber o que a nossa filha lhe contou e o que  que voc no quer me contar. 
- Estreitou o olhar. - Nick a maltratou? 
    - No, claro que no! 
    Annie fechou a porta da geladeira. A chaleira comeou a soltar vapor e ela tirou-a do fogo antes que comeasse a apitar. 
    - Por fayor, pegue duas canecas, sim? Esto na prateleira  sua direita. 
    - Ele no parece elo tipo que faria algo assim... - considerou Chase; pegando duas xcaras de porcelana branca. - Mas se ele tocou num fio de cabelo ele nossa 
filha... 
    - Quer se acalmar? Eu estou dizendo que no  esse o caso. Nick  um amor. 
    - Bem, ento o que ? Annie evitava encar-lo. - ... ah,  complicado. 
    - Complicado? - Chase estreitou o olhar novamente. - No ... o rapaz no 
    ... 
    - No  o qu? Ainda toma com duas colheres de acar ou j aprendeu a dispensar esse veneno'? 
    - Duas colheres e pare de me censurar. 
    Annie despejou duas colheres de acar no ch do ex-marido e misturou-as com energia. 
    - Tem razo. Pode se atolar de acar por mim. A sua sade no  mais problema meu,  dela. 
    - Dela? 
    - De Janet Pendleton. 
    - Janet Pen... - Chase enrubesceu. - Ah, claro. 
    Annie pousou a caneca de ch na frente dele, com fora bastante para que o lquido mbar extravasasse da borda. 
    - Ai! - resmungou Chase, soprando os dedos. 
    - Que sua noiva se preocupe com o seu peso - desdenhou Annie. 
    - Ningum precisa se preocupar com o meu peso ...- informou Chase, e encolheu, a barriga discretamente. 
    Ele tinha razo, pensou Annie, amarga, acomodando-se na banqueta ao lado do ex-marido. Ningum tinha que se preocupar com Chase. Ele continuava to bonito quanto 
no dia do casamento e no dia em que se divorciaram. Outra vantagem de ser homem. Os homens no sofriam as terrveis mudanas que acompanhavam as mulheres na virada 
da meia-idade. A balana do banheiro que recusava-se a marcar direito. A carne que comeava a sofrer a ao da gravidade. As rugas que Janet Pendleton ainda no 
tinha. A barriguinha da qual a secretria de Chase no devia ter o menor vestgio.
    - ...aparentar normalidade. No  isso o que est acontecendo com Dawn e Nick, ? 
    Annie franziu o cenho. - Do que est falando? 
    - Da realidade,  do que estou falando. Estava contando-lhe sobre esse rapaz que se casou, mesmo sabendo que era violento, na esperana de aparentar normalidade... 
    Annie engasgou com o ch. 
    - Minha nossa! - reclamou, assim que conseguiu falar. Voc  um esteretipo masculino pattico, Chase Cooper! No, Nicholas no  violento. 
    - Tem certeza? 
    - Absoluta. 
    - Est bem. S quis me certificar.  
    - Nick e Dawn j estavam morando juntos h trs meses. E Dawn nunca reclamou sobre esse assunto. Pelo contrrio. - Annie ruborizou. - Passei por l algumas vezes, 
sempre no meio do dia entende? E posso dizer, pela aparncia deles e pelo tempo que levavam para atender  porta, que tudo estava correndo muito bem nesse departamento. 
- Contemplou o lquido na caneca.  At tinha resolvido no ir mais l sem antes telefonar. 
    - O que quer dizer com "morando juntos"? 
    - Exatamente o que eu disse. Dawn no contou a voc? Eles alugaram um apartamento em Cannondale. 
    - Raios, Annie, como pde permitir que a nossa filha fizesse isso? 
    - Ora, ela s foi morar com o homem com quem ia se casar! 
    - Por que no a proibiu? 
    Ela tem dezoito anos, Chase.  legalmente adulta e pode tomar suas prprias decises. 
    - ? 
    - O que quer dizer com isso? 
    - Voc poderia ter-lhe dito que isso  errado! 
    - Amar nunca foi errado. 
    - Amar - repetiu Chase, e balanou a cabea: - Diria que isso est mais para sexo. 
    - Eu pedi a ela para esperar, para pensar melhor e ter certeza de que estava fazendo a coisa certa. Ela disse que j tinha pensado e que era o que queria. 
    - Sexo - afirmou Chase. Annie suspirou. 
    - Sexo, amor... as duas frentes caminham juntas. 
    - Sim, bem, eles podiam ter um e ainda assim esperado pelo outro, at depois do casamento. - Chase tomou o ch. - Mas acho que isso j est fora de moda. 
    - Tambm estvamos  frente de nossa poca, ento - lembrou Annie. 
    Chase enrubesceu. 
    - O que ns fizemos ou deixamos de fazer no tem nada a ver com essa situao. 
    -  a que voc se engana. - Annie levantou-se. Pegou a caneca de ch com as duas mos e caminhou at a janela que dava para o jardim. - Acho que temos tudo 
a ver com essa situao. 
    - Do que est falando? 
    - Pode me fazer um favor? Apague a luz. Minha cabea est estourando. 
    - Quer uma aspirina? - Chase apagou a luz e a cozinha mergulhou na penumbra. 
    Annie balanou a cabea. - J tomei. - Sentou-se no peitoril da janela e levou os joelhos at junto ao queixo. Fitava a escurido. - Quer saber o que Dawn disse? 
Vou contar, mas voc no vai gostar nada de ouvir. 
    - J no gosto de quase tudo o que aconteceu hoje - resumiu Chase. Levantou-se e foi at junto dela. - Por que essa revelao seria diferente? 
    - Em primeiro lugar, ela disse que ama Nick. 
    - Grande! - Chase cruzou os braos e recostou-se contra a esquadria. - Por que tenho a impresso de que vamos comear com as boas notcias? 
    - Ela disse que sabe que ele a ama. 
    - Estamos indo bem. 
    Annie assentiu. 
    - A m notcia  que ela fugiu dele por esse mesmo motivo. Chase franziu o cenho. 
    - Deixe-me ver se entendi. A nossa filha se apaixonou, ficou noiva, mudou-se para um apartamento com esse rapaz, casou-se com ele, partiu para a lua-de-mel... 
ento, decidiu fugir porque est convencida de que o ama e de que ele a ama tambm? 
    Annie suspirou. 
    - Bem,  um pouco mais complicado. 
    - Fico feliz em saber. Por um segundo, pensei que tivesse ficado maluco. O que mais? 
    - Ela est com medo. 
    - Medo ... - repetiu Chase, tentando manter a calma. Tinha a sensao de que mergulhariam naquele mar de emoes no qual as mulheres deslizavam com tanta desenvoltura 
e onde os homens mal conseguiam manter a cabea  tona. - De qu? 
    - De deixarem de se amar. 
    - Annie, - Chase sentou-se no peitoril e seus joelhos se roaram. - Voc disse que a moa gosta do rapaz e que o rapaz gosta da moa. Eles esto apenas comeando. 
No h motivo para ela achar que... 
    - Ela est com medo do que possa vir a acontecer. 
    Chase aguardou, mas Annie no disse mais nada. Ele praticamente via a gua subir. 
    - O que ela acha que vai acontecer? - indagou. Annie encolheu os ombros. 
    - Que o amor deles vai maturar e morrer. 
    - Isso  ridculo! 
    - Eu disse a mesma coisa. 
    - E? 
    - E ela disse... - Atmie engoliu em seco, - Ela disse que nos viu hoje, na festa. 
    - Ns? - Chase assentiu, como se compreendesse aquela connversa maluca. As guas revelavam-se mais profundas. E agitadas. - Ns, quer dizer, eu e voc,? 
    
    - Ns - repetiu Annie. - Eu e voc. Ela disse que se ressentiu ao ver como odiamos ser forados a danar juntos hoje. 
    - Bem, claro que no gostamos! Ningum nos avisou sobre o que ia acontecer. Voc explicou isso a ela? 
    - Expliquei. 
    Chase recordou o momento em que danaram juntos. Foi mais alm, recordou como fora bom t-Ia nos braos ... Pigarreou. - Ns demos conta do recado, no demos? 
    - Demos. Eu ressaltei isso a ela. 
    -E? 
    - E ela disse que foi triste ver que ns fingamos estar nos divertindo danando juntos novamente. - Annie sentiu o rosto queimar. A certa altura da dana, deixara 
de sentir-se contrariada e passara a apreciar estar nos braos de Chase. - Eu disse a ela que aquilo no era motivo de preocupao. 
    - E? 
    - E isso foi tudo. 
    - Foi tudo o qu? No sei do que est falando. 
    Annie pousou a caneca sobre o peitoril e cruzou as mos  frente. 
    - Isso motivou tudo. 
    - Motivou tudo o qu? Ainda no sei... 
    - Dawn disse que estava no aeroporto, ali junto ao balco, voc sabe, enquanto Nick despachava a bagagem e confirmava suas poltronas, quando ocorreu-lhe que 
estava triste por voc e eu termos nos amado muito no passado. 
    - Ela se sentiria melhor se ns no tivssemos nos amado? Annie engoliu em seco. Sentia um n apertado na garganta. - Ela disse que percebeu, pela primeira vez, 
que voc e eu devamos ter nos sentido como ela e Nick algum dia. Voc entende? Como se fssemos os nicos seres humanos da face da Terra que se amavam tanto. 
    - Os enamorados sempre se sentem assim - ponderou Chase, sombrio. 
    - Ela disse que, se o pai e a me um dia tinham se sentido daquele jeito e hoje se sentiam como nos sentimos agora, ento, ela no queria fazer parte desse processo 
que poderia lev-Ios, e que nos levou, ao ponto em que estamos. 
    Chase encarou a ex-esposa. Seus olhos estavam umedecidos e os lbios, trmulos. Estaria ela, como ele, lembrando-se do sentimento que os unira um dia? Da alegria? 
Da paixo? Aps uma longa pausa, pigarreou novamente. 
    - O que voc disse? 
    - O que eu poderia dizer? 
    - Que os nossos erros no precisam ser os dela, para comear. 
    Annie acenou com a mo, dispensando-o tristemente. 
    - Voc disse que ela provavelmente estava cansada e confusa e estava dando uma proporo exagerada ao problema? 
    - Disse. 
    - timo. 
    - Eu pensava da mesma forma. - Annie suspirou. - Mas Dawn disse que estava sendo pragmtica. Ela disse que preferia terminar tudo com Nick agora, enquanto ainda 
se importavam um com o outro, a esperar at... at que chegassem a se odiar. 
    - Mas, Annie. Ns no nos odiamos. Voc disse isso a ela, no disse? 
    Annie assentiu. 
    - E? 
    - E ela disse que eu estava me iludindo,  que o amor e o dio eram verso e reverso da mesma moeda, que no havia meio-termo. Pessoas que se apaixonavam deixavam 
de se apaixonar na mesma proporo. 
    Chase soltou um suspiro. - Minha filha, a filsofa. 
    Annie ergueu o olhar, emocionada. 
    - O que ns vamos fazer? - sussurrou... 
    - Eu no sei. 
    - Dawn est magoada. Deve haver alguma forma de... No podemos  deix-Ia simplesmente abandonar Nick. Ela o ama, Chase. E ele a ama. 
    - Eu sei. Eu sei. - Chase passou a mo pelo cabelo. - Deixe-me pensar um pouco. 
    - A nossa filha est assustada com o casamento e  nossa culpa! 
    Chase levantou-se. - Que droga! 
    - Tambm acho. 
    -  ruim ns termos colocado a pique o nosso casamento! No quero me sentir culpado pelo fracasso do casamento de Dawn! Est me ouvindo, Annie? 
    - A casa inteira pode ouvir voc! - disparou Annie. - Mantenha o tom baixo, seno voc acorda os garotos. 
    - Eles no so "garotos". Voc no acaba de dizer isso? Nossa filha  adulta o suficiente para decidir se casar, apesar de voc ter tentado convenc-Ia do contrrio. 
    Annie levantou-se, mos aos quadris. 
    - Eu realmente tentei convenc-Ia a no se casar! Mas voc j tinha se intrometido e dado o pssimo conselho: "siga o seu corao". Voc lhe disse para fazer 
o que bem entendesse! 
    - No  verdade.- Chase foi at Annie, o olhar traduzindo sua irritao. -Implorei-lhe para que revisse a questo. Disse-lhe que era jovem demais para dar um 
passo to srio e... quer saber? Eu estava certo! 
    Annie soltou a respirao, que mantivera suspensa sem perceber. 
    - Certo, certo. Ento, ns dois tentamos convenc-Ia a esperar. 
            Dawn devia ter nos ouvido. Mas no ouviu. 
    - No. No ouviu. Ela fez tudo a seu modo. Ento, nos viu danando e, de repente, incorporou Sigmund Freud e percebeu que tinha cometido um grave erro. 
    - Chase, por favor! Fale bai... 
    - Ela vislumbrou uma situao futura ao nos ver danando. Por que no se concentrou em algum pedao de papel no cho do aeroporto? Ou algum fio eltrico exposto 
no teto? 
    - No  hora para ironias! 
    - Talvez tenha sido algum msico ao piano tocando o tema de Casablanca. - Chase levou as mos aos cabelos, agitado e por que ela no estava sintonizada no dia 
em que o pai tentou lhe dar um conselho? 
    - Eu tambm tentei aconselh-Ia - reforou Arinie. -  o que estou tentando dizer. 
    - E de que adiantou gastar saliva?- continuou Chase, ignorando-a. - Ela no estava ouvindo? Fez o que queria e agora acha que pode jogar a culpa no nosso divrcio? 
    Anne contraiu os lbios. 
    - Acho que ela no est tentando jogar a culpa em nada. S est preocupada. 
    - Ela est preocupada? E quanto aos outros? Ela acha que ns estamos nos divertindo? - Chase ficou sombrio. - Pode imaginar como me senti ao abrir a porta e 
ver Nick ali de p, contando que Dawn tinha fugido e que no conseguia localiz-Ia? Faz idia da preocupao que eu e aquele rapaz tivemos? 
    - Gritar no ajuda em nada, Chase. 
    - Nem bancar o tolo! - Chase golpeou a parede. - Se voc tivesse sido mais enrgica ... 
    - No jogue a culpa em mim! - protestou Annie. 
    - No sei o que voc fez. Eu no estava aqui nos ltimos cinco anos, lembra-se? 
    - E de quem  a culpa? 
    Chase e Annie encararam-se. Ento, Annie soltou um suspiro. - Isso  intil. No adianta remexer no passado. Dawn precisa de nossa ajuda. No podemos permitir 
que ela deixe Nick e destrua o casamento pelos motivos errados. 
    - Concordo. Se pelo menos ela simplesmente tivesse ido morar com Nick. Por que teve que se apressar em formalizar a situao? - H poucos minutos, voc estava 
furioso por ela ter se mudado para o apartamento dele! 
    - Voc no ensinou autocontrole a ela? Se ela no tivesse deixado os hormnios falarem mais alto... 
    - Como se atreve? Como voc se atreve a falar em autocontrole? Se voc tivesse algum autocontrole, ns ainda estaramos casados! 
    - Estou cansado de me defender dessa velha acusao, Annie. Alm disso, se voc no tivesse se comportado como se eu fosse um leproso... 
    - Isso mesmo. Jogue a culpa em, mim. 
            - No estou vendo mais ningum aqui em quem jogar a culpa. 
    - Eu odeio voc, Chase Cooper! Eu odeio voc, est me ou-vindo? E lamento cada uma das vezes em que deixei que tocasse em mim! 
    - Mentirosa! 
    - Mentirosa, eu? 
    Chase avanou e tomou Annie pelos ombros. 
    - Voc sempre gostou de estar nos meus braos. 
    - S porque eu era muito inocente! - Annie cerrou os dentes e tentou desvencilhar-se. - Eu era praticamente uma criana quando nos conhecemos. Ou j se esqueceu 
disso? 
    - Voc era a criana mais ardente que j conheci. Quando a beijei pela primeira vez, sua receptividade no deixou nenhuma dvida. S pude concluir que a queria 
para, mim, para o resto da vida. 
    - At descobrir que h mais na vida a dois do que a cama. 
    - Oh, voc com certeza me ensinou uma lio. "Agora no, Chase. No estou com vontade, Chase"... 
    - E de quem voc acha que era a culpa? 
    - Voc no me viu dando-lhe as costas, viu, meu bem? 
    - No me chame de meu bem! - protestou Annie, furiosa. - E, se eu lhe dei as costas, foi por um bom motivo. Eu no sentia mais nada. Acha que eu devia ter fingido? 
    - No  isso que faz quando est com esse Hoffman? 
    Annie levantou a mo, Chase segurou-a antes que atingisse seu rosto. 
    - Voc sabe muito bem que no precisava fingir quando fazamos amor - grunhiu. - Mesmo no final. Voc s  orgulhosa demais para admitir. 
    - Pobre Chase. O seu ego no agenta a verdade? 
    - Eu vou lhe mostrar a "verdade"! 
    - No! - protestou Annie, mas era tarde demais. Chase j lhe tomava os lbios de assalto. 
    Ante o beijo raivoso, Annie debateu-se, golpeando o ex-marido nos ombros, tentando desesperadamente afastar-se. 
    Mas ento, bem no fundo da alma, algo pareceu ceder. Talvez fosse o silncio da noite, ali bem junto  janela. Talvez fosse a tenso do dia interminvel. De 
repente, a raiva deu lugar a uma emoo mais forte. Desejo. O mesmo desejo que existira entre eles no passado e que ela imaginara ter morrido. 
    Chase teve a mesma reao. 
    - Annie... - sussurrou, contra sua boca.  Acariciou-lhe os cabelos e tomou-lhe o rosto. Com um suspiro, ela lanou os, braos ao redor de seu pescoo e entreabriu 
os lbios para se entregar completamente ao beijo. 
    Era como andar de bicicleta. Seus corpos se enrijeceram, roando-se com a tranqilidade da paixo havia tanto partilhada. Inclinaram mais o rosto para aproveitar 
melhor o beijo. As lnguas trabalhavam ousadas. 
    Annie apertou as mos na nuca de Chase, enquanto ele lhe apalpava as costas, at chegar aos quadris. Ele a ergueu ento, ajustando-a contra seu corpo. Ela gemeu 
ao sentir o membro rgido contra seu ventre macio. Ele gemeu ao perceber que ela se posicionava melhor para senti-Io. 
    Por um longo momento, permaneceram perdidos um no outro. Ento, ofegantes, afastaram-se um pouco. 
    Annie sentiu a pele queimar quando o ex-marido lhe tomou o rosto e varreu-lhe a boca com os lblos. 
    Chase desejou tom-Ia nos braos e carreg-Ia para a escurido. - Annie? - sussurrou. 
    Ela sorriu e agarrou-lhe os punhos. - Hum? 
    De repente, a cozinha ficou totalmente iluminada. - Me? Pai? O que esto fazendo aqui? 
    Annie e Chase voltaram-se. Dawn e Nick estavam junto  porta, boquiabertos. 
    
    CAPTULO QUATRO
    
    Boa pergunta, considerou Annie . 
            O que eles estavam fazendo, ela e o ex-marido? Sentiu o rosto queimar ainda mais. 
    Parecia que haviam voltado aos primeiros tempos, quando uma hora de namoro no carro era o suficiente para deix-l os ansiosos por mais beijos e carcias. 
    - Me? 
    Dawn ainda olhava para os pais. Parecia to chocada, como se estivesse diante de um bando de homenzinhos verdes dizendo "levem-nos a seu lder". 
    E era tudo culpa de Chase! 
    Ele se aproveitara de sua perturbao, envolvera-a enquanto ela tentava subjugar as emoes conflitantes. E por que motivo? Para cal-Ia. 
    Era o mesmo subterfgio que ele usara durante todos os anos em que foram casados. Sempre que ela tentava conversar sobre o que estava errado, Chase, acomodado 
com a situao, dizia que no havia o que discutir. Quando ela insistia, ele a calava tomanndo-a nos braos e fazendo amor. 
    Dera certo, mas s por algum tempo, enquanto ela ainda acreditava que os beijos significavam que ele a amava. Eventualmente, percebera que no havia relao 
entre os dois fatos. Chase estava apenas silenciando-a, da forma mais direta possvel, usando o que sempre funcionara bem entre eles. 
    Sexo. Selvagem, bsico, primitivo. 
    Mas s sexo, por mais ardente que fosse, no bastava para  manter um relacionmento equivocado. Annie levara algum tempo para perceber, mas chegara a essa concluso. 
    Chase aplicara o mesmo golpe naquela noite. E ela facilitara. 
    Correspondera aos beijos, quando devia saber as regras. Devolvera o beijo quando no sentia mais nada por ele o que quer que tivesse acontecido havia pouco, 
no significava nada. J no sentia nada pelo ex-marido, exceto raiva. 
    - Me? Voc est bem? Annie respirou fundo. 
    - Estou tima - afirmou, e recomps-se. - Estou perfeitamente bem, Dawn. 
    Dawn sorriu, confusa. 
    - Mas o que vocs esto fazendo? 
    Annie aguardou que Chase respondesse, mas ele continuou em silncio. Ela teria de pensar em alguma desculpa plausvel. Chase sabia que ela no contaria a verdade 
a Dawn, ou seja, que o pai dela apenas lanara mo de um velho truque para no deix-Ia falar. 
    - Bem, seu pai e eu estvamos...  conversando  sobre voc e Nick. E... e... 
    - E a sua me comeou a chorar, ento, eu coloquei meu brao ao redor dela, para confort-Ia. 
    Annie voltou-se para Chase. Ele estava muito empertigado, o retrato da honra, decncia e paternalismo, com cala de sarja, camisa de colarinho aberto e suter 
de cashmere verde-escuro. O cabelo estava meio desalinhado e j se notava a barba por fazer, mas esses detalhes at lhe emprestavam algum charme. 
    Ela, por outro lado, estava um horror, de cala jeans velha e bluso desbotado. Nem sequer escovara o cabelo, desde que sara para a igreja! Seu rosto estava 
lavado, sem o menor vestgio da maquiagem caprichada que fizera horas antes. 
    - A sua pobre me est preocupada - informou Chasee pousou o brao ao redor dos ombros de Annie. Sorriu-lhe confiante. Ela precisava de um ombro para chorar, 
no , Annie? 
    -  - confirmou ela, com um sorriso falso. O que mais poderia fazer? Dizer que ele estava mentindo? Que os dois estavam no escuro, beijando-se, quase perdendo 
o controle da situao, porque ele era um aproveitador e ela estava havia muito tempo sem homem? Sim, eis a verdade, nua e crua. Nunca teria correspondido ao beijo 
de Chase se no estivesse vivendo como freira. 
    - Verdade? - Dawn olhou para os dois novamente e, ento, entristeceu-se. - Entendo. Foi tolice minha achar... Quero dizer, quando os vi se beijando, pensei... 
Quase pensei... Oh, que importa? 
    Annie desvencilhou-se de Chase e foi para o fogo preparar mais ch. 
    - Beijando-nos, eu e seu pai? 
    - . - Dawn foi at a mesa, puxou uma cadeira e sentou-se, apoiando o queixo nas mos unidas. - Isso s mostra o quanto sou  tonta. 
    
    - No! - protestou Nick. Todos olharam para ele. Era a primeira vez que ele falava desde que tinham acendido as luzes. Ruborizou-se sob o olhar da esposa e dos 
sogros. - Voc no  tonta. 
    - Sou, sim. S isso explica  eu ter me casado quando j desconfiava de que o amor se acaba durante o casamento. No fundo, todos sabemos  disso. 
    - No sabemos nada disso - disse Nick, e correu para junto dela. Ajoelhou-se a seu lado e tomou-lhe as mos para aquec-Ias. 
    - Olhe a seu redor, Nicky. O seu tutor, o seu tio Thomas... Separados. Os meus pais? Separados. At o reverendo Craighill... 
    - O que realizou a cerimnia? - interrompeu Chase. 
    Dawn assentiu. 
    - Como sabe? 
    - Eu perguntei. O pobre homem j se separou duas vezes. Duas vezes, pode imaginar? 
    Chase olhou para Annie. 
    - No - declarou, severo. - Com certeza, no posso. 
    - No olhe para mim desse jeito - protestou Annie. A chaleira comeou a soltar vapor e ela tirou-a do fogo. - O que tem o histrico matrimonial do homem a ver 
com isso? 
    - Um pastor que no pode manter a aliana de casamento devia pensar em arrumar outro trabalho - grunhiu Chase. 
    - No, ele est no trabalho certo, papai - contrariou Dawn. 
    - Ele  um bastio da realidade. - A jovem suspirou novamente. - S gostaria de ter sido inteligente o suficiente para perceber tudo isso antes, ao invs de 
fazer papel de idiota. 
    - Querida, pare de falar assim! - Nick tomou-lhe os ombros. - Voc foi inteligente ao se apaixonar por mim, e mais inteligente ainda em se casar comigo. - Lanou 
um olhar acusador a Annie e Chase...- E quanto  impresso de viu seus pais se beijando quando acendemos a luz... voc estava certa. 
    Dawn encarou o marido. - Estava? 
    - Isso mesmo. Eu os vi se beijando tambm. 
    - No! - protestou Annie. 
    - Ns no estvamos nos beijando - reforou Chase. 
    - Em absoluto. - Annie fez um gesto na direo do ex-marido. 
    - Dawn, seu pai j explicou o que aconteceu.  Eu estava nervosa. Ele estava tentando me confortar. 
    - Est vendo, Nick? - Dawn tinha os olhos cheios de lgrimas. - Eles no estavam se beijando. Oh, como gostaria que fosse verdade! 
    Annie franziu o cenho. - Gostaria? 
    - Claro. - Dawn suspirou e passou a mo no nariz. Annie e Chase buscaram uma toalha de papel, mas Nick rapidamente ofereceu-lhe um leno. - Entenda... quando 
vi voc nos braos de papai... bem, quando achei que vi voc nos braos dele, me senti feliz pela primeira vez desde o aeroporto. Pensei, s por um segundo, admito, 
mas ainda assim, pensei... 
    - Pensou o qu? - apressou Annie, suave, embora j soubesse, embora sentisse o corao despedaado pelo fato de a filha ainda nutrir tal esperana. Foi para 
junto dela, envolveu-a pelos ombros e beijou-lhe a cabea. - O qu, querida? 
    Dawn suspirou, emocionada. 
    - Pensei que tinha acontecido um milagre hoje - sussurrou. 
    - Que voc e papai tinham finalmente reconhecido o erro que foi o, divrcio e percebido que ainda se amavam. 
    Seguiu-se um silncio doloroso. Ento, Annie soluou baixinho. - Oh, Dawn. Querida, se fosse to simples assim! 
    - No pode julgar o futuro de seu casamento baseando-se no nosso - declarou Chase, mal-humorado. - Fofura, se voc e Nick se amam... 
    - O que isso prova? Voc e mame se amaram um dia. 
    - Bem, sim. Claro que sim, mas...  
    - E ento viram que no estavam mais apaixonados, como todo mundo. 
    - No todo mundo, querida.  uma generalizao grave... 
    - Deve ter sido horrvel saber que tinham se amado e que, de repente, tudo pareceu errado. 
    Chase olhou para Annle. Ajude-me, pedia o olhar dele, mas ela sabia que no tinha mais respostas do que tivera cinco anos antes. - Bem... - retomou, cauteloso 
- No foi agradvel. Mas isso no significa que... 
    - Vocs se esforaram para me proteger, durante a separao, mas eu no era to criana. Costumava ouvir mame chorando. E percebia que os seus olhos tambm 
ficavam vermelhos, s vezes, papai. 
    Nick levantou-se e afastou-se quando Chase foi at a filha. 
    - No queramos mago-Ia, Dawn. Fizemos o mximo para poup-Ia. 
    - Voc no entende, papai. No estou lamentando o passado, estou apreensiva quanto ao futuro. Quanto ao que vai inexoravelmente acontecer a mim e Nick. No sei 
por que levei tanto tempo para perceber. Ns... ns vamos nos magoar e, antes que isso acontea, prefiro parar. 
    Annie afastou o cabelo aa testa de Dawn. 
    - Dawn, querida, posso citar vrios casamentos que deram certo. 
    - A estatstica no  favorvel. 
    - No sei de onde tirou a idia. 
    - No  uma idia,  fato. Aquele curso sobre vida familiar que freqentei em Easton, lembra-se? O professor mostrou todas essas estatsticas, me. Casamento 
 uma bobagem! 
    Annie cerrou os dentes, repreendendo-se silenciosamente por ter convencido Dawn a cursar pelo menos algumas matrias na universidade local, j que no prosseguiria 
nos estudos, conforme haviam planejado. 
    - Sempre h um fator de risco em qualquer coisa que realmente valha a pena - ponderou Chase. 
    Annie lanou-lhe um olhar agradecido. - Exatamente. 
    - Ento, quando as pessoas se casam, elas devem estar cientes de que esto entrando em um jogo de azar? - concluiu Dawn, olhando para os pais. 
    Annie ficou sem resposta. 
    - Bem, no... No exatamente. As pessoas no devem pensar assim... 
    Olhou para Chase mais uma vez. Diga alguma coisa, estava estampado em seu rosto. 
    - Claro que no! - apressou-se Chase. - Os casais devem colocar toda a f em sua habilidade de fazer o casamento dar certo. 
    - E se no for suficiente? 
    - Ento, devem tentar com mais afinco. 
    Dawn assentiu. 
    - E, depois, acabam desistindo. 
    - No! O que eu quero dizer ... - Chase olhou para Annie buscando apoio. - Annie? Voc pode explicar isso? 
    Annie sentiu que pisava em areia movedia. 
    - O que seu pai est dizendo  que, s vezes, os casais tentam e, ainda assim, no conseguem  fazer o relacionamento funcionar. 
    - Como voc e papai. 
    Annie sentiu a areia cedendo, devagar, sob seus ps. - Bem, sim - concordou, cautelosa. - Como ns. Mas isso no significa que todos os casamentos fracassem. 
    Dawn suspirou. 
    - Acho que sim. Mas o casamento de outras pessoas no interessa agora. S o que pensei hoje foi o quanto seria maravilhoso se vocs voltassem a ficar juntos. 
- Enterrou o nariz no leno de Nick e assoou  com fora. - Ento, quando vi vocs se beijando...  quando  achei que vi vocs se beijando... 
    - Ns estvamos - afirmou Chase. Annie olhou-o incrdula, estupefata. 
    Chase deu de ombros. No havia por que mentirem sobre a ocorrncia de um beijo, sem maiores conseqncias. Entrelaou os dedos nos da filha e sorriu gentil. 
    - Voc no imaginou nada, querida. Voc e Nick viram isso mesmo. Eu estava beijando a sua me. E ela estava retribuindo. 
    O semblante coberto de lgrimas de Dawn iluminou-se.
    - Voc quer dizer... - Ela olhou para eles, os lbios trmulos. - Eu estava certa? Vocs esto pensando em se reconciliar? 
    - No! - adiantou-se Annie. - Dawn, um beijo no significa... 
    - No significa que chegaram a uma deciso - ajudou Nick. - Certo, sra. Cooper? 
    Oh, Nick!,  pensou Annie, infeliz. Pousou a mo no brao do genro. 
    - Ouam, eu sei que vocs dois gostariam que eu dissesse, mas ... 
    - Apenas diga que h uma chance - declarou Nick, o olhar suplicante. - Ainda que pequena. 
    Annie sentiu a areia ceder sob os ps. - Chase, por favor, diga alguma coisa! 
    Chase engoliu em seco. Fazia anos que Annie no o olhava daquele jeito, como se ele fosse um cavaleiro em armadura prateada. Dawn tambm no o olhava com tanta 
adorao desde que parara de jogar softball. 
    As duas mulheres de sua vida contavam com ele para salvar aquela situao. 
    Era uma responsabilidade terrvel. Infelizmente, no fazia a mnima idia de como proceder. 
    Pense, incentivou-se, homem, pense! Devia haver alguma coisa... Dawn sentiu as lgrimas brotarem novamente. 
    - No importa. No precisa dizer nada. Tenho idade suficiente para saber que um beijo no  um compromisso. 
    Annie soltou um suspiro, como se estivesse retendo a respirao havia muito tempo. 
    - Isso mesmo - concluiu. 
    - Foi burrice achar que vocs iam tentar se reconciliar. 
    Annie sorriu para Chase por sobre a cabea da filha. - Estou feliz por entender isso querida. 
    - No h segunda chance... - Dawn limpou o nariz e olhou para o trio a seu redor. - Isso  Kierkegaard. Ou Sartre, talvez. Um dos dois,  esqueci qual. 
    
    - Do seu curso de filosofia - completou Annie, sombria, decidida a cancelar o do nativo que enviaria  Universidade Comuunitria de Easton. 
    - Claro que h! - contrariou Chase. 
    - No, no h! - teimou Dawn, suspirando - Basta olhar para vocs dois, se quer um exemplo acabado. 
    - Certo - declarou Chase. - J basta. 
    - Chase, no diga nada de que possa se arrepender. 
    - Sr. Cooper, como marido de Dawn ... 
    - Dawn Elizabeth Cooper... Dawn Elizabeth Babbitt, voc est se comportando como uma criana mimada! - Chase empurrou Nick para o lado e olhou para a filha de 
cima. - Isso  bobagem. Estatsticas de casamento, estatsticas de divrcio e, agora, citaes de um bando de homens mortos que no eram capazes de achar os prprios... 
    - Chase! - repreendeu Annie. 
    - ...chapus nas cabeas, quando estavam vivos - prosseguiu Chase. - Voc e Nick se amam. Foi por isso que se casaram,  certo? 
    - Certo - afirmou Dawn, baixinho. - Mas, papai... 
    - No, voc ouve para variar. Dei-lhe a vez e agora  a minha! 
    - Chase respirou fundo. - Vocs se amam. Vocs se casaram. Fizeram votos importantes, incluindo o de permanecer juntos nos bons e maus momentos. Pense nessa 
promessa, Dawn. - Tomou-lhe as mos e olhou bem para ela. - Isso significa que sempre, ter que dar uma segunda chance, sempre h um bom motivo para tentar novamente. 
    Dawn assentiu; as lgrimas correndo soltas pelo rosto. 
    - Exatamente - concordou ela. -  por isso que, quando vi voc e mame juntos, pensei como era maravilhoso v-Ios dando uma segunda chance a si mesmos! 
    - Dawn, por favor, querida - pediu Nick. - Voc est nervosa. 
    - No estou, no - protestou Dawn, com a voz trmula. 
    - Vamos sair daqui. Vamos nos dar uma segunda chance. 
    - Para qu? Para nos magoarmos em algum momento no futuro? - Ela soluou forte. - Est me pedindo para participar de um jogo terrvel, Nick, e fazer o que seria 
um milagre. 
    - Isso mesmo! - exclamou Chase. 
    Todos voltaram-se para ele. 
    Apesar dos argumentos contrrios, Chase sabia que a filha esstava certa, Um percentual elevado dos casamentos fracassavam. E o rompimento, quando se amava to 
profundamente quanto ele amara Annie, causava a pior dor imaginvel. 
    Mas como poderia permitir que a fIlha e o genro fracassassem sem mesmo tentar? 
    Nick teve a idia certa. Ele e Dawn precisavam sair dali. Precisavam ficar sozinhos e livres de presso. Deviam partir logo para a bendita lua-de-mel e s conseguia 
imaginar uma forma de  viabilizar aquela situao ideal. A filha queria um milagre? Certo. Ele providenciaria um. - Dawn, voc est certa sobre sua me e eu. 
    - No - protestou Annie. - Chase, no! 
    - No queramos dizer nada at termos certeza, pois ainda  estamos confusos, entende? Na verdade, a incerteza  que  muito grande... 
    - Chase! - berrou Annie, aterrorizada. 
    Chase a ignorou. Dando um sorriso terno  filha, pediu perdo aos cus, caso houvesse anjos encarregados de marcar as mentiras de cada um.  
    - No prometemos nada, no oferecemos garantia nenhuma, mas... sim, sua me e eu decidimos pelo menos conversar sobre nos dar uma segunda chance. 
    
    
    CAPTULO CINCO
    
    Chase observava Annie andar pela sala de estar. O movimento era quase hipntico. Ela ia e vinha, ia e vinha, parando diante dele apenas para lanar-lhe um olhar 
de raiva e incredulidade com uma intensidade que faria a alegria de Medusa. 
    Aps o repente de fria que se seguira  partida de Dawn e Nick, ela no dissera mais nada, mas isso no significava que se acalmara. Faltava pouco para a exploso 
propriamente dita. O rosto plido, os lbios contrados e o andar decidido diziam-lhe que era questo de minutos. E sequer podia culp-Ia. 
    O que o levara a fazer uma declarao to estpida? Sugerir uma possibilidade de reconciliao entre ele e Annie fora loucura. Fora errado... e injusto. Dawn, 
falsamente convencida de que reecebera seu milagre, partira com esperana no corao... 
    Mas, pelo menos, partira. Era isso que queriam todos, afinal de contas. Que Dawn ficasse a ss com o marido, que percebesse que o futuro de seu casamento no 
tinha relao com o fracasso da unio de seus pais. 
    O fato de uma gerao ter feito bobagem no significava que a gerao seguinte repetiria o erro. 
    Chase sentiu o peso sair dos ombros. O que fizera fora impetuoso, talvez at ultrajante. Mas, se, graas a isso, Dawn fosse encontrar seu prprio caminho na 
vida e no casamento, ento, valera a pena. A quem magoara, afinal? Quando os garotos volltassem da lua-de-mel, bastaria explicar-Ihes que os induzira a acreditar 
em algo que no estava acontecendo de verdade. 
    - E como acha que sua filha vai se sentir quando souber que foi lograda pelos prprios pais? - questionou Annie. 
    Chase ergueu o olhar. Annie estava trmula de to nervosa. Mas incrivelmente atraente. 
    Havia uma eternidade, ela costumava tremer assim em seus braos. Quando ele a acariciava. Quando lhe massageava os seios, o ventre. Quando ele se encaixava entre 
suas coxas... 
    - Est me ouvindo, Chase Cooper? Como acha que a nossa filha vai se sentir quando descobrir que o milagre era uma farsa? 
    Chase franziu o cenho. - No  to ruim. 
    - Tem razo.  pior! 
    - Oua, eu estava apenas tentando ajud-Ia. 
    -Hah! 
    - Certo, certo. Talvez eu tenha cometido um erro, mas ... 
    - Talvez?! 
    - As palavras saram. Eu no queria... 
    - No pode nem admitir que errou? 
    - Eu j admiti. Disse que talvez tenha cometido um equvoco. 
    Annie desdenhou. 
    - Ainda no percebe, no ? Um "equvoco" acontece quando nos esquecemos de um compromisso. Ou quando digitamos um nmero errado. 
    - Ou dizemos algo, no calor do momento, achando que poderia ... 
    - Voc mentiu, Chase. H uma grande diferena. Mas eu no estou surpresa. 
    Chase levantou-se. 
    - E o qu, exatamente, isso significa? 
    - Nada. 
    - Bolas! - Ele a agarrou pelos ombros e fez com que o encarasse. - Se h uma palavra que nunca suportei  essa. Voc sempre diz "nada", mas at um idiota sabe 
que isso significa alguma cois. 
    Annie sorriu satisfeita. 
    - Estou contente em saber. 
    Ele ficou sombrio. Agarrou-a com mais fora e inclinou-se em sua direo. 
    - Est me provocando! Ela ergueu o queixo. 
    - O que vai fazer? Bater em mim? 
    Annie viu Chase estreitar o olhar. Por que ela dissera tal coisa? Eles brigavam, sim. Discutiam com palavras duras. Quando concordaram em se divorciar, tinham 
gasto toda a munio verbal possvel. 
    Mas ele nunca encostara a mo nela. Nunca erguera a mo contra ela. Annie nunca tivera medo dele fisicamente e no o temia agora. Estava zangada. Ele tambm. 
Havia pouco, estiveram fora de si e acabaram um nos braos do outro, beijando-se com ardor. 
    Ora, o que est fazendo, mulher? Est maluca? Est tentando provoc-lo para ele beij-la novamente? 
    Annie se enrijeceu e desvencilhou-se. 
    - Isso no vai nos levar a lugar algum - declarou, e foi at o sof, onde sentou-se. - S gostaria de saber o que fazer. 
    - Por que temos de "fazer" alguma coisa? - questionou Chase, e sentou-se na cadeira. 
    - Dawn vai ficar na expectativa ... 
    Chase suspirou e inclinou-se para a frente, os cotovelos sobre os joelhos; Apoiou o rosto nas mos. - Eu sei. 
    - Como pde? Como pde dizer aquilo? 
    - No sei. - Ele se endireitou e passou a mo no rosto. - Cansao talvez. No dormi nada ... em que ano estamos, alis? - Para dizer tal bobagem a ela ... 
    - Certo, voc j colocou o seu ponto de vista. - Ele franziu o cenho e recostou-se nas almofadas do mvel que Annie chamava de cadeira, o aparelho de tortura 
em que passara a ltima hora. - Essa almofada  de qu, afinal? Palha de ao? 
    - Crina de cavalo, o que combina, considerando sua mais recente atitude irracional! 
    Chase riu. 
    - Que jeito  esse de falar, Annie? 
    - Chase ... 
    - E melhor se policiar, meu bem. Controle o linguajar. 
    - No me chame de meu bem. No gosto. S me diga o que devemos fazer agora. 
    Chase franziu o cenho, ao levantar-se. Esfregou a nuca e masssageou o pescoo enquanto caminhava lentamente para a janela. 
    Uma leve claridade amarelada surgia por detrs das rvores no quintal da casa. Amanhecia e Dawn estava quase l, no Hava, comeando sua lua-de-mel com Nick. 
Sorriu e pensou em comentar isso com Annie, mas suspeitava de que ela no iria suportar a saudade da filha. 
    - Vamos esperar at as crianas voltarem - decidiu Chase, voltando-se. - Ento, ns contaremos... eu contarei a eles que nunca deveria ter inventado que estvamos 
nos dando uma segunda chance. 
    - A verdade, quer dizer. 
    - Toda a verdade e nada alm disso. 
    Annie assentiu. Levantou-se e foi para a cozinha. Chase a acompanhou. 
    - Suponho que isso vai limpar sua conscincia. 
    - Chase sentou-se na banqueta junto ao balco. 
    - Se vai fazer mais ch ou caf ... 
    -  exatamente o que vou fazer. 
    - Para mim, no. - Ele pousou a mo no estmago. - As ltimas doze xcaras ainda esto se revirando aqui. 
    - Talvez prefira alguma outra coisa ... Chocolate quente?  Chase ergueu o cenho. 
    - Bem, sim, isso seria... 
    - Cacau mesmo, talvez. Uma xcara grande e caprichada, 
    - No precisa se comportar assim, Annie. 
    - No? 
    - No. - Ele se levantou, foi at a geladeira e abriu a porta. 
    - No tem cerveja? 
    - No. - Annie passou por baixo do brao dele e fechou a porta da geladeira. - Eu no bebo cerveja. 
    Chase encarou-a. 
    - Aposto que o poeta maricas no, bebe tambm. 
    - O... - Annie ruborizou. - Se est falando de Milton... 
    - Que tal refrigerante diettico? Ou isso tambm est abaixo dos seus padres? 
    Annie olhou-o com raiva. Ento, foi at a despensa. 
    - Tome - disse ela, jogando-lhe a lata. - Tome refrigerante, apesar do inusitado da hora! Talvez isso limpe as suas idias e voc elabore, um plano que funcione. 
    - Eu j elaborei. - Chase puxou a tampinha da lata e reagiu com uma careta ao saborear o refrigerante morno. Abriu o conngelador para apanhar cubos de gelo. 
- Quando os garotos voltarem da lua-de-mel, vou dizer que ns distorcemos a verdade para o bem deles. 
    - Ns? - enfatizou Annie, com ar de professol'a~ - Certo. Eu. Eu distorci a verdade. 
    - Voc ainda est fazendo isso, Chase. Diga. Voc mentiu. Chase tomou um gole demorado e passou o copo gelado na testa. 
    - Eu menti. Est bem assim? Est se sentindo melhor? Annie no respondeu. Ficou olhando para o caf escoando pelo filtro de papel. 
    - Voc mentiu e o que foi que eu fiz? 
    - Oua, no sei aonde est querendo chegar, Annie, mas ns j falamos sobre isso, lembra-se? - Suspirou e levou o copo de refrigerante ao corao. - Quer que 
eu jure que vou agir correetamente? Eu juro. Quer a minha palavra de que deixarei bem claro que voc no teve nada com isso? Voc a tem. 
    Annie cruzou os braos. - Mas eu tive. 
    - Teve o qu? Ora, acho que estou acordado h muito tempo, meu crebro j no est funcionando bem. O que foi agora? Eu disse que contarei a Dawn que foi tudo 
idia minha. No posso fazer nada alm disso, meu bem, posso? 
    Annie levantou-se da banqueta. 
    - No me chame assim - protestou, mas sem tanta raiva. Suspirou profundamente. - No pode dizer a ela que no tive parte nisso, porque eu tive. 
    - Teve? - repetiu Chase, tentando manter a calma. Olhou para o refrigerante e para o caf, tentando calcular onde haveria mais cafena. - Estou cansado - resmungou. 
- Preciso me deitar, Annie. Estou para l de cansado. Posso jurar que ouvi voc dizer que... 
    - Eu tive parte na mentira. - Annie apoiou os cotovelos sobre o balco e esfregou o rosto. - Eu disse que sou to responsvel por essa confuso quanto voc. 
    - No seja ridcula. Fui eu que menti. 
    - Pelo menos est admitindo que foi uma mentira. - Ela suspirou, esfregou o rosto novamente, olhou para ele e cruzou as mos. - Dawn vai me perguntar por que 
eu no disse nada, se sabia que voc estava mentindo. 
    - Bem, voc diz a verdade. 
    - E qual ? 
    - Que... - Chase franziu o cenho. - Nem sei mais sobre o que estamos falando. A verdade  a verdade. 
    - A verdade no  a verdade. No exatamente. Quero dizer, eu ouvi voc dizendo que estvamos pensando em uma reconciiliao. Eu poderia ter dito "No  bem assim, 
Dawn. Seu pai est inventando"... 
    Chase sentiu um aperto no peito. 
    - Mas voc no disse - observou ele. 
    - Eu no disse. - Annie olhou-o e confirmou: - Eu me calei. 
    - Por qu? 
    O cabelo de Annie desprendera-se, emoldurando-lhe o rosto. 
    Chase lutou contra o desejo de estender a mo e tocar nas mechas macias e brilhantes. 
    Annie suspirou. - Voc vai achar que estou maluca. 
    - Tente. 
    - Porque, no fundo, eu sabia que esse era o nico modo de faz-Ia parar de comparar ela e Nick a ns. Foi tolice dela  fazer isso. S porque voc e eu... porque 
deixamos de nos gostar... no significa que eles vo ter o mesmo destino. 
    Chase sentiu algo que no saberia definir. Alvio, convenceu-se. 
    Raios, o que mais poderia ser? 
    - No vou cham-Ia de maluca. - Sorriu. - Mas precisa admitir que est to confusa a respeito dos limites da mentira quanto eu. 
    Annie assentiu. 
    - Bem, ento, quando eles voltarem, ns dois vamos admitir que distorcemos a verdade e esperar pelo melhor. 
    - Suponho que sim.         
    Annie sentiu o lbio estremecer. 
    - Dawn vai ficar magoada. E zangada. 
    - Ela vai superar. 
    - Nunca lhe mentimos, Chase. Mesmo quando... quando finalmente decidimos nos divorciar, contamos-lhe a verdade. 
    
    Chase olhou para a ex-esposa. 
    - Bem, talvez haja um outro modo. - Observou Annie enxugar as lgrimas com a mo. - Quero dizer... podamos concordar em tentar uma reconciliao. 
    - O qu? 
    - No de verdade, claro - explicou Chase. - Uma encenao. Voc sabe, passar algum tempo juntos. Sair para jantar, por exemplo. Esse tipo de coisa. 
    Annie olhou fixamente para ele, os olhos muito abertos e obscurecidos. 
    - Fingir?  
    - Bem, sim. - Chase estava quase rouco. - S assim poderemos encar-Ios de frente e dizer "sim, ns tentamos"... 
    - No. 
    - No? 
    Annie balanou a cabea. - Eu... eu no poderia. 
    - Por qu no? 
    Annie esforou-se para encontrar uma resposta. Por que no, mesmo? Que mal faria passar a semana da lua-de-mel de Dawn saindo, ou fingindo sair, com o ex-marido? 
Era s evitarem tocar em assuntos que traziam  tona as velhas animosidades e a dor. Poderiam apertar as mos, como em um acordo comercial, e fingir, pela felicidade 
da filha. Mas no conseguiria fazer isso. Uma semana vendo Chase? Sete dias sorrindo-lhe durante o jantar? Vendo seu rosto, ouvindo sua voz? Caminhando a seu lado? 
No. Seria muito... muito... 
    - Seria errado - declarou, agitada. 
    - Annie... 
    - No h razo para consertar uma mentira com outra. - Ela levantou-se, pegou a cafeteira e jogou o contedo na pia. - Voc tinha razo. Mais um gole de cafena 
e vou comear a ter azia. 
    - Annie... 
    Ela voltou-se para encar-lo. 
    - No daria certo - resumiu. - Nem para voc, nem para mim... nem  para ningum. 
    - Quem mais? Ningum precisaria saber. Annie parecia hesitante. 
    - E a sua noiva? 
    - Minha... 
    - Janet Pendleton. Como vai explicar isso a ela? Chase franziu o cenho. Outra mentira pesando em sua conscincia. 
    - Bem... Direi a ela o mesmo que voc disser ao seu projeto de poeta. 
    Annie ruborizou. 
    - Voc sempre gostou de fazer pouco das pessoas. Eu pensei ter dito a voc que Milton  professor na universidade. 
    - Ele  um cara medocre e aposto como voc est freqentando algum curso ministrado por ele. O que  desta vez? Como falar ingls do, sculo dezesseis no sculo 
vinte? Cinqenta maneiras de transformar pensamentos simples em total obscuridade? 
    - Obscuridade? - repetiu Annie, batendo os clios. - Estou impressionada. 
    - Pois eu, no! Como pode ser to ingnua? Assistindo a cursos idiotas monitorados por imbecis orgulhosos de seus ttulos... 
    - Voc tambm tem um ttulo, sr. Cooper, mas, claro, voc no  imbecil! 
    - Voc est certa, no sou. Pelo menos, tenho calos nas mos. Eu trabalho de verdade. 
    - Saiba que Milton Hoffman  um acadmico shakesperiano com reputao notvel. 
    - Em qu? Seduo de mulheres casadas? Annie ficou alterada. 
    - Eu no sou uma mulher casada! Sim, assisti a um curso que ele deu e sim, ele compe poesias. Belas poesias que, tenho certeza, esto alm da sua compreenso. 
- Lembrando-se de mais um detalhe, completou: - Sei que vai ficar decepcionado, mas Milton no  gay. 
    Chase cruzou os braos. 
    - Suponho que fale com conhecimento de causa - disparou, e sentiu o estmago enjoado. 
    Annie nem hesitou. Por que se preocupar em contar uma mentira ao mestre da arte? 
    - Claro - confirmou, com um sorriso. 
    Chase remexeu o maxilar. Era o momento de fazer algum comentrio sarcstico. Infelizmente, o raciocnio no funcionou. No, no era verdade. Sua mente encheu-se 
de imagens de Annie nos braos de Hoffman. 
    - Que bom para vocs dois! - comentou, friamente. Annie ergueu a cabea. 
    - Ns achamos que sim. 
    - Ento, quando  o grande dia? 
    - Que grande... - Ela engoliu em seco. - Quer dizer, o casamento? - Encolheu os ombros. - Ns... ainda no marcamos uma data. E voc?
    - E eu, o qu? 
    - Quando voc e Janet vo dar o n? 
    N era o termo. Chase at sentia o n fechando-se no pescoo. - Logo. 
    - Neste vero? 
    - Depende. Tenho esse projeto comeando em Seattle... 
    - E, claro isso vem em primeiro lugar. 
    -  um trabalho importante, Annie. 
    - Tenho certeza de que sim. E tenho certeza de que, Janet entende isso. 
    - Ela entende, sim. Ela sabe que uma empresa como a minha exige que eu me dedique vinte horas ao dia. 
    - Ela entende muito melhor do que eu. 
    - Est absolutamente certa! 
    Encararam-se, ambos recordando, caso j houvessem se esquecido, como era bom no estarem mais vivendo juntos. 
    Ento, Chase informou: - Tenho que pegar um avio. 
    - Isso mesmo. Decole. D as costas  confuso que aprontou. 
    - Bolas, o que quer que eu faa? Devo estar em Seattle para uma inspeo amanh  tarde. Ora, de que estou falando?  Franzindo o cenho, afastou a manga do suter 
e viu as horas.   esta tarde. 
    - Corra! - aconselhou Annie, e cruzou os braos. - Antes mesmo de acabarmos de conversar, antes de encontrarmos uma soluo para o problema que voc criou. 
    - timo. Voc quer conversar? Pode me levar ao hotel para eu pegar a bagagem. E, depois, pode me levar ao aeroporto. 
    Quinze minutos at o hotel, pensou Annie, estreitando o olhar sobre ele, e depois mais quarenta minutos at o Aeroporto Bradley. Uma hora, mais ou menos. Com 
certeza, podia sobreviver  companhia dele, se isso significasse uma soluo. 
    - Est bem - concordou Annie, mas ento hesitou. 
    Talvez devesse subir e trocar, de roupa... ? No. Para qu? Chase merecia ser levado ao aeroporto por uma mulher vestida com roupa de faxina. Pegou a chave do 
carro. 
    - O que est esperando, Chase? Vamos. 
    Annie aguardou no carro enquanto Chase fechava a conta na recepo do hotel. 
    Concordar em lev-Io ao aeroporto no fora uma boa idia. No haviam concordado em nada at aquele momento. E estar to perto de Chase em seu carrinho popular 
provocava-lhe... bem, um certo constrangimento. Chase era grande demais para o carro. A coxa dele ficava a poucos centmetros da dela. Os ombros roaavam-se quando 
fazia uma curva mais acentuada e o cheiro dele impregnava o ar. 
    Quanto antes se livrasse do ex-marido, melhor. 
    - Podemos ir? - indagou, quando ele se acomodou no banco. 
    - Podemos. - Chase tirou o bilhete areo do bolso. - Vou pela West Coast Air. 
    Annie dirigia destramente em meio ao trfego pesado. - Terminal A ou B? 
    - Como vou saber? 
    - Deveria, porque Bradley tem dois terminais - explicou Annie, paciente. - Preciso saberem qual voc vai embarcar. 
    - Mas no vou embarcar em Bradley. 
    Annie olhou-o confusa. 
    - No? 
    - Vou embarcar em Logan, Boston. Pensei que tivesse entendido isso. 
    - Boston?! - exclamou Annie, lamentando o mal-entendido. 
    Levariam duas horas, no quarenta minutos, para chegar l. - Mas pensei que... 
    - O meu vo parte ao meio-dia. Vamos conseguir? Talvez devesse ligar para a companhia area. Se houver outro vo em uma hora ou duas, poderemos parar para comer 
alguma coisa. 
    - No seja tolo. - Annie olhou para o relgio no painel.  -  H tempo de sobra - declarou, e acelerou. 
    Chegaram ao aeroporto com vinte minutos de antecedncia. Annie estacionou o carro num local proibido. Chase abriu a porta e saltou. 
    - Bem, obrigado pela carona. Ela assentiu. 
    - No h de qu. 
    - Lamento que no tenhamos chegado a uma soluo. 
    - Eu tambm. 
    - Assim que os garotos voltarem ... 
    - Eu ligo para voc. 
    - Ns acharemos uma soluo at I. 
    - Com certeza. 
    - Dawn  uma boa menina. Ela vai entender, se decidirmos passar tudo a limpo. 
    - Chase, o seu vio. 
    - Certo. - Chase fechou a porta do. carro. - Bem... 
    - Adeus - encerrou Annie. Pisou no acelerador e conduziu o carro para a sada. 
    Annie estacionou no acostamento pouco depois. Sentia o corao acelerdo e a viso turva. 
    
    Por que brigavam por assuntos to tolos? Por que estavam sempre se alfinetando? 
    - Porque vocs no combinam - sussurrou, respondendo s prprias perguntas. - Nunca combinaram. Era s o sexo que os mantinha longe da verdade. Annie franziu 
o cenho. O que era aquilo no cho do carro? Inclinou-se e pegou um envelope comprido. 
    Era a passagem de Chase. 
    - Ah, no! - Nervosa, deu meia-volta e voltou com o carro, numa manobra irregular. 
    Chase no estava no terminal, ou melhor, Annie no conseguia localiz-Io. Havia tanta gente! 
    Annie correu para ver o painel de partidas e chegadas. Para onde ele disse que estava indo? Seattle? Sim, era isso. Pela West Coast Air. L estava. Porto seis. 
    Correu pelo saguo, passando pelos balces das companhias areas, rumo aos portes de embarque. Um segurana pediu para ver sua passagem. Mostrou-a rapidamente 
e prosseguiu. 
    Se era preciso estar com um passagem para entrar ali, como Chase conseguira entrar? 
    Oh, l estava ele! 
    - Chase! - chamou - Chase! Ele voltou-se ao ouvir sua voz. - Annie? 
    Ele abriu os braos. Ela tentou no correr para ele, mas no conseguia diminuir a velocidade. Estava to ansiosa! Dali a insstantes, estava nos braos de Chase. 
    - Annie - sussurrou ele, gentil. - Meu bem. 
    Com os braos em torno do pescoo dele, ela acariciou-lhe o cabelo. Beijaram-se. 
    - Chase, a sua passagem ... 
    - Est tudo bem - disse ele, os lbios junto aos dela. - No fale nada. S me beije. 
    Ela obedeceu e voltaram aos velhos tempos. O beijo doce, a alegria e, ento, a onda de excitao por estar nos braos de Chase... - Me! Pai! No  incrvel? 
    Annie e Chase afastaram-se rpido. Dawn e Nick estavam parados a um metro de distncia. Nick parecia um pouco surpreso, mas Dawn estava encantada. 
    Annie recuperou-se primeiro. 
    - Dawn? E Nick? O que esto fazendo aqui? Chase pigarreou. 
    - Pensamos que vocs j tinham partido. 
    - Bem, houve um atraso. Condies meteorolgicas. Algo assim. Nada srio. 
    - Ah, entendo - murmurou Chase. - Quero dizer, isso  ruim. Ouam, gostaria de poder ficar e conversar, mas o meu avio... 
    - Ns s estamos andando para matar o tempo - disse Dawn. 
    - Est nesse vo para Seattle? 
    - Isso mesmo. E vai partir em alguns minutos, ento ... 
    - Claro. - Dawn avanou e abraou os pais. - Achei maravilhoso ver vocs dois assim. 
    - Dawn, meu bem . 
    - Annie - cortou Chase, cauteloso. 
    Ela o encarou. Ele tinha razo. Ainda no era hora de contar  filha sobre a farsa. 
    - O qu, me? 
    - Apenas... apenas... mantenha-se de mente aberta, certo? Sobre... sobre seu pai e eu. 
    Dawn assentiu e aninhou-se junto ao marido. - Vou me manter. 
    - timo. Isso  bom. Porque... 
    - S quero que saibam o quanto significa para mim ver vocs dando uma segunda chance ao casamento. 
    Chase disfarou. - Para ns tambm... significa muito. 
    - Vou aceitar qualquer deciso que venham a tomar, especialmente agora que vi que esto tentando chegar a um entendimento com tanto afinco. 
    Annie e Chase olharam confusos para a filha, que completou: - Viajar juntos para Seattle!  maravilhoso! Eu tinha l minhas dvidas, sabem? Se vocs estavam 
mesmo tentado se entender ou se estavam apenas querendo que eu me sentisse melhor. - Sorriu. - Agora eu sei que, o que quer que acontea,  de verdade. 
    O sistema de alto-falantes anunciou: 
    - ltima chamada da West Coast Air, vo 606, para Seattle. Dawn deu um abrao conjunto nos pais. 
    - Vo - incentivou. - Nick e eu vamos ver vocs partirem. Apavorada, Annie raciocinava em busca de uma sada. 
    - No, crianas, no  preciso. 
    Mas j estavam os quatro marchando para o terminal, Dawn rebocando Annie pela direita e Chase pela esquerda. Nick vinha logo atrs. Quando chegaram ao porto 
de embarque, Dawn deu um beijo em cada um. 
    - Eu te amo, me - sussurrou. 
    - Dawn. Querida, voc no entende ... 
    -Entendo. E sei, do fundo do corao, que  assim que deve ser. 
    A comissria junto ao porto chamava-os: - Apressem-se, por favor, se quiserem pegar esse vo. 
    - Chase? - invocou Annie, desesperada, sentindo a mo dele junto ao cotovelo. 
    - Apenas ande - murmurou ele, com os dentes cerrados, empurrando-a gentilmente. 
    - No. Isso  impossvel! 
    - Voltar tambm. Caminhe. Sorria... e, quando estivermos no avio, comporte-se. 
    - S em sonho, Cooper J se esqueceu? Eu no tenho passagem. Chase olhou para a mo dela. 
    - Perdo, mas acho que tem. 
    - No seja ridculo! Eu tenho a sua passagem. Voc a deixou cair no carro. Foi por isso que voltei correndo. S ento Annie reparou na ponta de um bilhete areo 
no bolso do palet de Chase. 
    - Eu comprei outra - informou ele. - Tentei dizer isso a voc. 
    - No... - gemeu Annie. 
    - Sim. 
    Annie sentiu as pernas bambas e Chase amparou-a pelo cotovelo. - A comissria vai notar os nomes! Ela vai, ver que eu no posso ser ... 
    Chase pegou o envelope de Annie e retirou a passagem. - Apressem-se! - urgiu a comissria. 
    Dali a pouco, Annie estava sentada numa poltrona da primeira classe de um Boing 747 que acabava de decolar sob um cu azul de brigadeiro. 
    
    
    CAPTULO SEIS
    
    Eu no posso acreditar! 
    Chase suspirou, inclinou a poltrona e fechou os olhos. Sentia a cabea sendo martelada sem piedade. - Eu definitivamente, positivamente, no posso acreditar 
no que est acontecendo! 
    - Isso voc j disse uma centena de vezes esta manh. Ou talvez, tenha sido na noite passada. No sei por que, mas parece que perdi a noo do tempo. 
    - E pensar que eu permiti que voc me arrastasse para essa... 
    - Annie. Faa-nos um favor, sim? Deite-se. 
    - ...essa situao surrealista! E voc fica a, deitado, descansando como se nada anormal estivesse acontecendo! 
    Chase segurou os braos da poltrona com fora. Bem, Annie tinha motivos para estar to alvoroada. Ele tambm estava. 
    Vinham cometendo erros seguidos, afundando-se em mentiras. 
    Tudo para salvar o casamento de Dawn e Nick. No importava que, mais cedo ou mais tarde, tivesse que decepcionar sua garotinha. - Voc se importa? No, no o 
sr. Chase Cooper!  Ele  alheio a esses problemas. - Apenas fica a sentado, distante... 
    Mas, antes, teria que suportar Annie atirando em sua cara o que ele j sabia, que fora um idiota por t-Ios lanado nesse turrbilho de equvocos sucessivos, 
em primeiro lugar. 
    - ...me deixa louca! Eu fico aqui sentada, pensando na grande encrenca em que nos meteu e voc se preocupa? 
    - Annie, creia em mim. Eu estou preocupado. 
    - No est, no! - acusou Annie, colrica. - Se estivesse preocupado, no teria apetite. Mas voc se entregou aos prazeres da comida como um homem faminto diante 
de um banquete. 
    - Pode apostar que sim. Estava com fome. No comi nada desde a sola de sapato e as miniaturas que o buf distribuiu na festa. 
    - Sola de sapato? Miniaturas? - Annie estremeceu de indignao. - Isso s enfatiza o que voc j sabe. 
    Chase encarou-a, Pensou em rebater, mas refletiu melhor. 
    Raios, pensou, cansado, Annie tinha razo. O que ele sabia? 
    O bastante para erguer a Construtora Cooper  posio que ocupava hoje, mas no o suficiente para salvar o prprio casamento. Agora, dentre todas s pessoas, 
era ele que tentava salvar o casamento da filha. Havia uma ironia a, se ao menos conseguisse perceber. 
    Recostou a cabea e deixou a tirada irnica de Annie infiltrar-se em sua mente. Estava cansado demais para argumentar, at mesmo para responder. No se sentia 
to cansado desde os primeiros anos de seu casamento, quando trabalhava durante o dia e  noite fazia cursos de administrao, finanas e qualquer coisa que o ajudasse 
a conduzir sua empresa ao sucesso.
    Ainda lembrava-se de voltar, tarde da noite, to cansado que nem enxergava direito, mas no a ponto de dispensar os abraos da esposa, de sentar-se  mesa da 
cozinha e conversar sobre qualquer assunto, de poltica aos problemas de Annie na lanchonete. 
    Quando tudo comeara a dar errado? J analisara a questo, mas no descobrira um dia ou um evento ao qual pudesse atribuir a culpa. Eles haviam mudado, simplesmente, 
pouco a pouco, to sutilmente que, agora, aps tanto tempo, no conseguiriam mais apontar uma causa. S sabia que, em algum momento, Annie parara de esperar por 
ele. 
    No fora enquanto ele estudava  noite. No, fora depois disso. 
    Ele comeara a assumir trabalho em lugares distantes, a duas ou trs horas de viagem de casa. Mas nenhuma vez deixara de voltar. Dirigia  noite, mesmo cansado, 
s para rever sua Annie...  at  que percebeu que no adiantava nada, pois a nica coisa que ela dizia quando ele chegava era."no traga lama para dentro, Chase". 
Aps comunicar-lhe que seu jantar estava no microondas, ela ia dormir. 
    Aps fazer a refeio sozinho e planejar as atividades do dia seguinte, ele subia ao quarto e encontrava-a dormindo, ou fingindo dormir, de costas para ele, 
o corpo to rgido que ele nem se atrevia a toc-Ia. 
    Achara que tudo mudaria quando o dinheiro comeasse a entrar. 
    Prspero, ele passara a comprar presentes para Annie, mimos caros que sempre desejara lhe dar. Tambm enviava bombons e ramalhetes de flores em arranjos elaborados. 
    - Obrigada - dizia ela, educadamente, e Chase percebia que continuava faltando alguma coisa. 
    Agora, passava muito tempo nos canteiros de obras, pois era do tipo de homem que participava do trabalho, em vez de se trancar no escritrio. Acreditava que, 
para manter tudo sob controle, tinha de estar l em carne e osso. Soube que alcanara o sucesso ao receber convites para todo tipo de evento. Jantares na Cmara 
de Comrcio. Reunies beneficentes. Eventos a que ele no podia deixar de comparecer, pois, se no mantivesse os contatos, outra empresa ocuparia o espao conquistado 
e comearia a perder conntratos. Queria o melhor para Annie e Dawn, queria que elas tivessem tudo o que lhes fora negado por tanto tempo. 
    Diante de tantos convites sociais, ele ficara nervoso, a princpio. 
    No sabia como seria interagir com aquelas pessoas. Mas Annie no se abalara. 
    - Eu tambm devo ir? - perguntara ela, quando ele mostrara o primeiro convite para uma reunio beneficente. 
    Sentira-se magoado com a pergunta. Esperara que a esposa o admirasse ante aquela prova de sucesso no feroz mundo dos negcios. 
    - Claro, voc  minha esposa, no ? 
    Annie saiu, comprou vestidos e todos os acessrios e passou a freqentar cabeleireiros, freqentando os sales elegantes como se nunca houvesse trabalhado numa 
lanchonete ou cuidado de bebs como bab. 
    Ora, ele ficara to orgulhoso da esposa! Ela exalava autoconfiana. Era bonita e inteligente. Quisera ficar a seu lado para apresent-Ia aos convidados, mas 
logo percebeu que ela se saa bem sozinha. Reconhecia que ela trabalhara muito para que pudessem estar ali naquele dia e, por isso, recuava para que ela pudesse 
brilhar. Ele era o acompanhante e sentia-se feliz assim. 
    
    Que grande idiota! No fim, conclura que ela detestava acompanh-Io queles eventos. Logo comeou a recusar os convites, ao mesmo  tempo que iniciava uma infinidade 
de cursos noturnos inteis, deixando claro que queria uma vida independente da dele. 
    Ele acabou dedicando-se mais ao trabalho, passando dias longe de casa. Que mal fazia? Dawn estava entrando na adolescncia. Tinha seus prprios amigos. Quanto 
a Annie... Annie nunca estava disponvel. Freqentava um curso atrs do outro: "Como apreciar Haiku", "Entendendo Jasper Johns", fosse quem fosse Jasper Johns, "A 
arte da pintura em seda". 
    Por fim, ela se concentrou em cursos de arranjo floral e paisagismo. Foi quando ele fez a mala e disse adeus. Ah, antes, houvera um incidente! A secretria jogara-se 
em seus braos, embora ele no a houvesse incentivado, mas Annie no acreditara, evidentemente. 
    Peggy sentia-se solitria. To solitria quanto ele. Um batepapo, alguns almoos juntos, mais conversas aps o expediente, aps o que ele lhe pagava um txi 
para lev-Ia em casa. Por isso mesmo, ningum fIcara mais surpreso do que ele quando Peggy lanou-se em seus braos, certa noite. E, bem naquela hora, Annie, que 
muito raramente aparecia no escritrio, dera o ar da graa. 
    Chase suspirou. No que isso importasse mais. Ele e Annie estavam divorciados havia muito tempo. Ele construra uma nova vida, muito agradvel, e tinha certeza 
de que Janet ficaria encantada em partilh-Ia, se ele lhe pedisse. 
    Estava feliz. Contente. At aquele dia, 
    At ter Annie novamente em seus braos na pista de dana. 
    At que as lembranas voltassem com nitidez. At ele inventar uma mentira e coloc-Ios naquela situao pattica. 
    Ali estava ele, voando para Seattle, ouvindo Annie falar incessantemente sobre o que ele fizera, com duas horas ainda pela frente at poder embarc-Ia de volta. 
    - ...poderia pelo menos mostrar alguma preocupao! 
    Chase olhou para a ex: Annie olhava para frente, ruborizada, os braos cruzados. 
    - Oua, o que quer que eu faa? Que eu me ajoelhe e pea perdo? 
    Ela fungou, sem olh-Io. 
    - Apenas diga, certo? - insistiu ele. - E eu farei, porque estou cansado de ouvir as suas lamentaes! 
    Annie voltou-se para ele, o olhar fulminante. - Lamentaes? Eu? 
    - Sim, voc! Fica reclamando e choramingando e tudo porque eu cometi um equvoco. 
    - No estou lamentando nem choramingando. Estou apenas enfatizando o bvio. Sim, voc cometeu um equvoco. Dos grandes! E agora aqui estamos ns, voando para 
Portland... 
    - Seattle. 
    - Que diferena faz? 
    - Portland fIca no Oregon. Seattle, em Washington. H uma grande diferena. 
    - Bem, desculpe-me. Suponho que saberia a diferena, se tivesse ido para a universidade, mas infelizmente, isso me faltou. - Ensandeceu? O que um diploma de 
universidade tem a ver com isso? 
    Annie mordeu o lbio. - Nada. 
    - Voc tem toda razo - admitiu Chase. - Agora, por que no nos faz um favor? Recline a poltrona, feche os olhos e descanse. 
    - Oh, sim,  fcil para voc dizer! Se no fosse to obtuso, no estaramos passando por isso. Como pde? Como pde dizer a Dawn... 
    - Basta! - Chase tomou Annie nos braos e beijou-a. Ela ficou surpresa demais para lutar e ele tirou proveito, beijando-a longa e profundamente. - Agora, vai 
ficar quieta? Pois, se comear a falar novamente, vou cal-Ia com mais beijos. 
    Annie ficou vermelha de raiva. 
    - Eu odeio voc! - declarou, revoltada. Chase liberou-a. 
    - Qual a novidade? - retrucou, cansado, e fechou os olhos, tentando no pensar em como era bom beij-Ia, pois uma lembrana levava a outra e ele passaria a recordar 
como era fazer amor com Annie. 
    Pare, ordenou-se, e adormeceu profundamente. 
    Desgostosa, Annie observava Chase adormecido a seu lado. Ele ressonava e, a julgar por sua expresso, dormia o sono dos inocentes. 
    Bem, por que estava surpresa? Era assim que ele lidava com todos os problemas, mesmo antes do divrcio. 
    - Dormindo - resmungou ela, e relaxou na poltrona. 
    Houve uma poca em que ela, ao perceber que o casamento estava ameaado, tentara descobrir o que estava errado e qual seria a soluo. Ento, esperava Chase 
chegar, para conversarem. 
    Como era lenta para perceber os fatos! 
    Como conversar com um homem que chegava to tarde da noite? 
    Que fingia ficar trabalhando at tarde quando a simples verdade era que no voltava logo porque no tinha nada para dizer  esposa? 
    Era culpa sua ter-se casado to jovem, sem haver freqentado a universidade, como ele? 
    Por um breve perodo  quando a Construtora Cooper comeou a crescer, ousou sonhar que as coisas estavam melhorando. 
    Mas no estavam. Tudo estava piorando, a comear pela noite, em que Chase voltara e anunciara que havia sido convidado para um jantar importante. Ele queria 
ir. Tratava-se de urna grande oportunidade de negcios, segundo ele. 
    Era como um convite para o paraso. 
    - Voc quer que eu v? - perguntara ela. 
    Rezou para que ele dissesse que o que queria mesmo era que voltassem a se amar como antes. 
    Ao invs disso, ele fechou a cara e disse que ela deveria commparecer ao evento, pois era sua esposa. 
    Ou seja, Annie Cooper deveria cumprir suas obrigaes como esposa de um empresrio bem-sucedido. Acompanh-Io a festas fazia parte das atribuies de seu cargo, 
assim como preparar as refeies a que ele nunca estava presente, ou aquecer-lhe a cama, para quando ele a procurasse. 
    Assim, ela sara e comprara as roupas certas, arrumara o cabelo do jeito certo e o acompanhara  festa na Cmara de Comrcio. Ou algo assim. No se lembrava 
mais. No que isso fosse imporrtante. As dezenas de recepes s quais comparecera com Chase tinham sido todas iguais e ele nem mesmo ficara com ela o tempo todo. 
Era sempre o mesmo roteiro. Ele a apresentava e, ento, saa sozinho pela festa. Ia fazer contatos, nem mesmo fingia que apreciava a sua companhia, pois a verdade 
era que no se imporrtava mesmo. 
    Foi quando ela concluiu que estava cansada de ser a recatada esposa do formidvel empresrio Chase Cooper. Ele tinha seus diplomas e sua construtora. Ela tambm 
poderia ter algo seu. 
    Faria cursos. Sobre temas que nunca despertaram o interesse dele. Ele explodira ao chegar de uma viagem e v-Ia saindo para uma palestra sobre haiku.
    -  assim que escolhe os cursos, Annie? Olha no catlogo e diz: "Ei, esse parece 'bom! Meu marido idiota nem imagina o que seja isso!" 
    - Como descobriu? - ironizara ela. 
    E sara logo, para que ele no a visse chorando e para que no casse na tentao de questionar: "Chase, por favor, o que est acontecendo conosco? Eu te amo. 
Diga que ainda me ama". 
    No era verdade, claro, sobre os cursos. Ela freqentava os que achava interessantes. O de haiku, para se iniciar no universo japons. Aquele sobre Jasper Johns, 
porque um dos clientes de Chase mencionara possuir uma coleo de Johns. E o de pintura em seda porque ficara fascinada com as cores de um vestido que vira na vitrine 
de uma loja. 
    E quisera fazer o curso de arranjos florais por nostalgia, porque houvera uma poca em que Chase lhe trazia uma nica rosa, pois era s o que podia comprar, 
mas ela apreciava cada boto solitrio muito mais do que os enormes buqus que ele mandava lhe entregar agora. 
    Oh, como as rosas solitrias tinham sido mais significativas! Certo dia, Chase chegara em casa com uma rosa, uma garrafa de vinho e duas passagens para as ilhas 
Virgens, dizendo-lhe que a rosa era quase to bela quanto ela. 
    Ainda se lembrava de como se atirara em seus braos... 
    - Tive um dia cheio, meu bem - explicara ele, rouco. - Preciso de um banho. 
    Ela comeara a tirar-lhe a roupa. Um minuto depois, os dois entravam nus debaixo do chuveiro. 
    Annie ainda se arrepiava s por se lembrar daquele momento. 
    Tinham passado sabonete um no outro, tinham se acariciado e se beijado. Finalmente, fizeram amor ali mesmo, debaixo do jato de gua. Chase a sustentara com os 
braos fortes e ela se agarrara  cintura dele com as pernas. Ele sussurrava seu nome contra a pele molhada e ela gritou quando atingiram o orgasmo. 
    As lgrimas ameaaram brotar. Era estpido recordar aqueles momentos. Especialmente os relacionados a sexo, pois conduziam inevitavelmente ao motivo do fim do 
casamento. 
    Durante um curso de arranjos florais, realizara alguns trabalhos notveis e, certo dia, a instrutora solicitou-lhe que aguardasse aps a aula. Queria inscrever 
um de seus arranjos num concurso. 
    Annie concordou. Entusiasmada, sem conseguir lembrar da ltima vez que partilhara uma boa notcia com o marido, pegara o carro e fora at o escritrio de Chase. 
Percorreu o corredor saltitante e abriu a porta sem bater. 
    Annie estremeceu. 
    Ainda podia ver a cena, o marido e a secretria. A moa com os braos ao redor do pescoo dele, ele segurando-a pela cintura, os corpos muito juntos... 
    Foi isso. O casamento estava acabado. 
    Chase tentou explicar, distorcer a verdade, mas ela no se deixou lograr. Bastava a dor de ver o homem que amava afastar-se lentamente ao longo dos anos. 
    Naquela noite, sentindo-se trada e humilhada, Annie entendeu que o que senta pelo marido no existia mais. O amor estava morto e enterrado. 
    - Annie, voc precisa me ouvir! - implorara ele. 
    - Sim, sra. Cooper - reforara a secretria. - No  o que est pensando... 
    Ouvir? Ouvir o qu? No havia nada a discutir. 
    Sentiu-se repentinamente calma. A deciso no estava em suas mos, graas a Chase e  bela secretria chorosa. 
    - Quero o divrcio - informou, e at conseguiu esboar um sorriso frio  secretria. - Ele  todo seu - comunicou, deu meia volta e saiu. 
    Tudo acontecera rpido depois daquilo. Sua irm, Laurel, indicou-lhe uma advogada, no sem antes tentar convenc-Ia a no agir de forma to precipitada. Mas 
no havia nada de precipitado em sua deciso: Ela e Chase haviam caminhado para aquele momento durante anos. 
    O divrcio transcorreu de forma muito civilizada. O advogado de Chase era um velho amigo, David Chambers, que cumprimentava-a com um beijo no rosto e a tratou 
com cortesia em todas as sesses. Chase quis que ela ficasse com o apartamento. Com metade das economias. Com metade de tudo. Mais ajuda financeira  filha e uma 
penso generosa. 
    Mas Annie no queria nada. A advogada e o advogado de Chase advertiram-na de que agia de forma insensata. Tinha uma filha para sustentar. S por isso, aceitou 
a penso para a filha, e mais nada. Quanto ao apartamento, cheio de lembranas tristes, vendeu-o assim que pde. Mudou-se para Stratham e comeou uma vida nova, 
bem como uma carreira. Cortou os laos com o passado e conseguiu se sair bem. Tinha amigos. Fazia programas. Agora, tinha Milton Hoffman, que queria se casar com 
ela. 
    De repente, Chase reaparecia, estragando tudo com uma mentira estpida. 
    Annie mordeu o lbio. 
    A quem estava enganando? Sua vida comeara a ruir horas antes do episdio que Chase provocara. A verdade era que ele no fizera nada estpido, mas apenas agira 
por amor  filha. 
    No fora a mentira a coloc-Ia  em rota de coliso com o desastre. Fora a dana. Aquela dana  idiota na festa do casamento de Dawn. 
    Annie tentou no se lembrar. O calor dos braos de Chase ennvolvendo-lhe o corpo. A pulsao do corao dele junto ao seu. Os lbios dele contra seu cabelo, 
contra sua pele. A sensao de estar no lugar certo, o lugar que sempre lhe pertencera. 
    Oh! 
    Respirou com dificuldade: Pare, ordenou-se. Fechou os, olhos e concentrou-se em pegar no sono. 
    Uma mudana na rotao dos motores despertou Chase, horas mais tarde. 
    Ele bocejou e tentou se lembrar de onde estava, e levou um susto. 
    Annie estava adormecida com a cabea apoiada em seu ombro. Era a posio preferida deles,na fase do namoro, quando permaaneciam juntinhos no sof diante da televiso. 
    - Voc assiste, eu no me lmporto - dizia, sem muito interesse em jogo. - Vou ficar lendo. 
    Aps algum tempo, Annie dormitava e deixava escorregar o livro. Aninhada contra seu ombro, suspirava. Chase, quieto, sem se mexer para no acord-Ia, temeroso 
de romper aquele momento terno, ainda que sentisse os msculos tensos com a imobilidade. 
    O sentimento de ternura renasceu. Ela tambm estava sonhando. Olhando para ela, podia ver o sorriso em seus lbios. Estaria sonhando com ele? - Annie? Annie 
suspirou. 
    -Hum? 
    - Meu bem, est na hora de acordar. 
    Ela sorriu e aninhou-se mais junto dele.
    - Milton? 
    Milton? 
    Milton Hoffman? Era esse o homem nos sonhos de Annie? Era por isso que sorria e aninhava-se mais junto dele? 
    Chase sentiu o corao congelar. 
    Hoffman. Aquele prottipo de homem. Aquele idiota. Era aquilo que Annie queria. Era aquele tipo de homem que ela sempre desejara. 
    Por que no notara antes? 
    Milton Hoffman. Professor de ingls e autoridade em Shakespeare, que nunca carregou peso na vida. Que nunca teve que sair de casa antes do amanhecer para s 
voltar tarde da noite. Um sujeito que nunca teve que se preocupar em esconder a sujeira nas unhas, pois nunca precisou sujar as mos com nada. 
    Chase endireitou-se. A cabea de Annie ficou sem apoio. Ela reclamou sonolenta e ajeitou-se novamente junto dele. - Annie - chamou,  frio. - Acorde. 
    -Humm. 
    Annie suspirou. Encontrava-se no limiar entre o sonho e a realidade, quando a pessoa sabe que est sonhando, mas no se dispe a desistir do sonho. No deste 
sonho. Estava interessada demais para saber como acabaria. 
    Estava sentada em uma sala de aula, com Milton de joelhos a seu lado. Ele acabara de pedi-Ia em casamento e ela estava explicando, com tato, por que estava declinando. 
    Gosto muito de voc, Milton, dizia, e respeito-o e admiro-o muito. Mas ele no era Chase. Seus beijos no a acendiam como os de Chase. Sua carcia tambm no 
a excitava. - Annie? Acorde. 
    - Milton - murmurou ela, e abriu os olhos. 
    Chase observava-a bem de perto. 
    Annie afastou-se rpido, ruborizada. Estava dormindo havia quanto tempo? Quantas horas  ficara aninhada junto a Chase, como se estivessem num cinema ao ar livre, 
se  que ainda existiam tais lugares? 
    No era de admirar Chase estar olhando para ela daquele jeito. 
    Era provvel que ela houvesse babado em cima dele. 
    - Desculpe-me. - Levou as mos aos cabelos e afastou os fios rebeldes do rosto. - E ... acho que adormeci. 
    - E sonhou com seu prncipe encantado -- completou Chase, sarcstico. 
    - Prncipe ... 
    - O velho e bom Milty. O seu noivo. 
    Annie olhou para Chase e lembrou-se do sonho. - Eu ... eu disse alguma coisa? 
    - E o que importa, Annie? Est com medo que eu tenha ouvido o dilogo do seu sonho comprometedor? 
    - No foi comprometedor! S estava sonhando que... que... 
    - No gaste a saliva - a voz de Chase soou fria. - Eu no estou interessado. 
    Annie enrijeceu-se. 
    - Desculpe-me. Eu quase me esqueci. Nada do que eu tenha a dizer jamais lhe interessou, no  mesmo? 
    - Sr. Cooper? Sra. Cooper? - A comissria de bordo sorriu-lhes. 
    - Estaremos pousando em poucos minutos. Por favor, endireitem as suas poltronas. 
    - Com prazer - declarou Chase. 
    - Vou comprar uma passagem de volta assim que pousarmos - disparou Annie, sem olhar para ele. 
    - No ser preciso. Creia-me, ser meu prazer comprar-lhe uma passagem de volta e v-Ia embarcando. 
    Era uma tima idia. Infelizmente no funcionou. 
    O vo seguinte para Boston estava completamente lotado e com lista de espera. 
    - Providence, ento - pediu Chase. - Bradley... 
    Um a um, os aeroportos foram sendo descartados. 
    - Tivemos longas esperas pela manh - informou a atendente. 
    - Neblina em alguns aeroportos, furaces no Meio-Oeste... - Sorriu pesarosa. - Posso conseguir para a sua esposa... - Ex-esposa - corrigiu Annie. 
    - Como queira. Posso conseguir um lugar para amanh  tarde. 
    - Pacincia - resmungou Chase. 
    - Nada disso! - Annie olhou-o furiosa, pois era o culpado por ela estar naquela situao surrealista. - O que vou ficar fazendo at amanh  tarde? Passeando 
pelo aeroporto? 
    - Vou deix-Ia num hotel. 
    A atendente informou: - Espero que tenham sorte. 
    Annie e Chase olharam para a moa, que encolheu os ombros. - Fora as esperas, temos duas convenes na cidade. - Inclinou-se e falou mais baixo para eles. - 
A minha chefia usou todos os recursos possveis para instalar um VIP agora h pouco e no conseguiu arranjar um lugar. 
    Annie viu-se integrando a horda de viajantes cansados, brigando por um assento na rea do terminal. 
    - No se preocupe - adiantou Chase. - Tenho certeza de que o meu cliente fez uma reserva para mim em algum lugar. Voc vai poder se hospedar assim que eu entrar 
em contato com ele. 
    Nesse instante, os alto-falantes anunciaram uma ligao teleefnica para o sr. Chase Cooper. 
    Chase foi atender, arrastando Annie pelo brao. 
    - Sim? - Ele ouviu, suspirou e revirou os olhos. Era mais um problema para resolver. - Sr. Tanaka, no vi o seu funcionrio com uma placa com meu nome no porto 
de chegada. - Olhou para Annie. - Eu estava... preocupado. 
    - Quem ? - quis saber Annie. 
    Chase voltou-se. 
    - Bem,  muito amvel da sua parte, sr. Tanaka. Obrigado... por mandar um carro. 
    -  algum de Seattle? - investigou Annie, ficando  sua frente. - Pergunte se ele conhece algum hotel com vaga. 
    Chase suspirou. Kichiro Tanaka, seu novo cliente, era um empresrio rico e bem relacionado. Tinha investimentos no Sudoeste e agora estava voltando a ateno 
para a costa Oeste americana. Talvez at fosse dono de um hotel na cidade. 
    - Sr. Tanaka... Sim, vou procurar o motorista em seguida. Mas, antes, fiquei imaginando se o senhor poderia me ajudar com um pequeno problema... 
    Annie contraiu os lbios. Um pequeno problema chamado Annie Cooper Ela nunca fora mais do que isso para Chase. 
    - Bem... - Chase esfregou a nuca. - Minha, ah, minha esposa me acompanhou at aqui. 
    - Ex-esposa - corrigiu Annie. 
    Chase olhou para ela e tapou o fone com a mo, 
    - Quer que eu explique a um estranho por que est aqui? Annie ruborizou. Depois de um segundo, Chase pigarreou e recomeou: 
    - Ela no pretendia ficar. Sim, bem, suponho que  um modo de ver a coisa. 
    - O que foi? - indagou Annie. 
    - Excelente. Sim. Sim, j que ela viajou essa distncia toda, bem que poderamos passar algum tempo juntos. 
    Annie no estava gostando nem um pouco daquela conversa. - O problema, sr. Tanaka,  que os vos foram adiados.  provvel que Annie no consiga partir seno 
amanh e me disseram que os hotis esto lotados... Mesmo? 
    - Mesmo o qu? - quis saber Annie. 
    - Est timo. Sim, claro. Na rea de sada, em alguns minutos. Obrigado, senhor. Eu... nos veremos em breve. 
    - E ento? - Annie no disfarava o nervosismo. Chase desligou o telefone e agarrou-lhe a mo. 
    - Vamos. Temos que encontrar o carro e o motorista que ele mandou para c. 
    - Que maravilha! - desdenhou ela. - Um carro com motorista s para voc. 
    - E uma sute s para ns. - Chase sorriu maldoso. - Pode parar de reclamar. 
    Annie olhou-o raivosa enquanto tomavam a escada-rolante. 
    - Voc quer dizer... ? 
    - Quero dizer, para sua sorte, que conseguimos uma sute para dois. 
    - No um quarto de hotel! 
    Chegaram ao nvel inferior e Annie teve que se apressar, para acompanhar a passada larga de Chase. 
    - Ele disse que tem sala, quarto, cozinha e banheiro,  um apartamento - explicou Chase. 
    - Bem isso  bom - concluiu Annie. 
    - Concordo. Eu detestaria passar a noite num saguo de hotel enquanto voc ocuparia o quarto reservado para mim. 
    - Que cavalheirismo! Mas... 
    - Mas o qu? 
    Uma limusine preta estacionou  frente deles. O motorista saiu, cumprimentou-os e abriu a porta traseira. 
    - Entre no carro, Annie. Podemos suportar a companhia um do outro por mais algum tempo. Embora seja tentador larg-Ia aqui no aeroporto, no posso fazer isso 
conscientemente. 
    Embora fosse tentador para ela tambm, passar horas interminveis no terminal era invivel. 
    - Tudo bem - disparou ela. - Mas  melhor essa sute ser bem grande. Seno, voc vai dormir no saguo de qualquer jeito! 
    A sute no era to grande , embora tivesse uma boa rea.  Se bem que no era uma sute, pensou Annie, uma hora depois, ao olhar em redor,  chocada.  E certamente 
no era um apartamento.
    A limusine no os levara a um dos prdios altos do centro, mas a um per, onde tomaram um barco.
    - Chase, para onde estamos indo?
    Chase sabia tanto quanto ela.  Olhou para o piloto.
    - Diga-me que no estmos indo para a ilha - desafiou.
    O piloto sorriu.
    - Ora, claro que estamos!
    Chase gemeu.
    Annie olhou para ele, que se agarrou  amuirada e ficou olhando para as guas.  Tendo lido uma das palavras em seus lbios, ela ruborizou.
    Naquele momento, parada na sala, at desejava repetir a palavra.
    A neblina que envolvera o barco durante todo o trajeto dissipou-se ao se aproximarem do destino.  Annie vislumbroiu uma ilha com pinheiros verdes descendo pela 
encosta at a praia de cascalhos.
    Na parte mais alta, em meio s rvores, erguia-se uma construo, ou melhor, quase uma escultura em madeira e vidro. 
    Chegava-se l subindo degraus de madeira fincado na encosta irregular. Annie subira sozinha, recusando a ajuda de Chase. Chegando l, Annie apreciou a vista 
magnfica e olhou ao redor, imaginando tratar-se de um condomnio com vrios chals. 
    Mas s havia aquela casa mesmo, Quando Chase abriu a porta e entrou, ela o acompanhou. 
    Os cmodos eram amplos e estavam totalmente equipados e mobiliados. A cozinha tinha balces e armrios brancos e  o banheiro contava com uma banheira de hidromassagem, 
alm de um chuveiro isolado por um painel de vidro atravs do qual se podia ver a floresta nativa. A sala de estar era iluminada naturalmente do teto, atravs de 
uma espcie de clarabia, de modo que as paredes e o assoalho se tingiam de uma cor dourada. 
    A herana do sr. Tanaka mostrava-se em detalhes simples: no piso acolchoado sobre o cho, no biombo delicado que servia como divisria, na mesa baixa laqueada 
e nas almofadas de seda preta e branca junto  lareira. Portas de vidro davam para uma varanda de madeira.  
    Mas foi o quarto que deixou Annie apreensiva. A rea de estar tinha toques orientais, mas o gosto do sr. Tanaka para dormitrios era bem ocidental. 
    O grosso carpete branco convidava ao relaxamento dos ps descalos. Uma das paredes era espelhada, enquanto a outra, toda de vidro, dava para a floresta.  A 
moblia, bonita, consistia de uma cmoda, uma arca combinando, uma cadeira de balano... 
    E uma cama. 
    Uma enorme cama circular sobre uma plataforma, coberta por metros e metros de lenis em seda branca e preta. 
    
    CAPTULO SETE
    
    Annie disse a si mesma para se acalmar. Conte at dez. At vinte. Concentre-se em encontrar o centro pacfico  dentro de si mesma. No fora para isso que gastara 
seis semanas cursando aulas de filosofia zen? 
    
    Respire fundo. Segure. Um. Dois. Trs. Quatro. 
    Expire. No estava adiantando. S conseguia ver a cama. S conseguia pensar em Chase junto dela com aquela expresso de inocncia. 
    Quando teve certeza de que no conseguiria nenhum alvio  raiva que sentia~ desistiu da atitude zen e voltou  realidade. Voltou-se e deu um soco no estmago 
do marido. Era um abdmen duro o dele. Ele sempre tivera um corpo fantstico e; aparentemente, aquilo no mudara, o que a deixou mais furiosa, pois a reao do golpe 
subiu por seu brao e ombro. Mas valeu a pena ver a expresso chocada nele. 
    - Ei! - protestou ele, e recuou um passo. No que estivesse surpreso com a reao de Annie. - V com calma, sim?! 
    - Ir com calma? - Annie levou as mos aos quadris e ficou olhando para ele, ofegante de tanta raiva. - Ir com calma? -  repetiu, com voz de soprano. 
    - Sim. - Chase massageou a regio atingida. - No h neecessidade de ficar violenta por causa de um equvoco. 
    - Oh,  um equvoco, sim! Um grande equvoco, Cooper, pois, se acha que eu... que eu e voc... que ns vamos dividir essa... essa cama, que vamos relembrar os 
velhos tempos... 
    - Meu bem... 
    - No me chame de meu bem! 
    - Annie, voc no acha... 
    - Sempre achei que voc me considerava um ser sem crebro. 
    Chase quase gemeu. L estavam novamente, mergulhando em guas fundas. 
    - Oua, eu sei que est aborrecida. Mas... 
    -  isso. Diga que estou aborrecida. Dessa forma, voc pode me calar e no ter mais que ouvir a verdade. 
    - Annie... 
    - Deixe-me dizer-lhe uma coisa, Chase Cooper.  Pode ter funcionado no passado, mas no agora. No sou a imbecil que voc sempre achou que eu era. 
    - Annie, eu nunca achei... 
    - Sim, achou, mas isso no importa mais. 
    - Juro que no nunca achei. 
    - Oh, meeeuuu beeemm - imitou ela. - Desculpe-me, mas voc no vai se importar se eu sair, vai? Tenho essa reunio dos filhos sagrados da ordem dos saxofones. 
    Apesar de tudo, Chase riu. - Reunio do qu? 
    - No tente levar na brincadeira, Cooper! No pode mudar os fatos. 
    - Que fatos? 
    - Estou falando sobre o nosso assim chamado casamento, sobre isso! Quando voc costumava me tratar como se eu no possusse neurnios. 
    - Ainda no sei do que est falando! 
    - Bem, deixe-me refrescar a sua memria. Pense nos velhos tempos, quando costumava me levar quelas infindveis festas, reunies e coquetis. 
    - Como a dos filhos sagrados da ordem dos saxofones? 
    - S dei um exemplo hipottico e no tente levar na brincadeira, Chase. Estou falando srio. 
    - Sobre o qu? 
    - Sei que voc estava preocupado por sua pobre esposinha no saber se portar nesses eventos. 
    - O qu? 
    - Ento, quando viu que eu me virava, voc simplesmente... simplesmente me deixou, me largou no meio de gente interesseira e foi fazer os seus contatos. 
    - Annie, voc est louca. Eu nunca... 
    - Foi ento que olhou ao redor e viu que poderia se divertir muito mais se me deixasse em casa? 
    - Um de ns est perdendo a razo - concluiu Chase. - E com certeza no sou eu. 
    - Ah, ? 
    - Acha que fiquei contente quando voc parou de ir aos jantares comigo para que eu pudesse me divertir como solteiro? 
    - Voc disse isso, no eu! 
    - Raios, mas a distoro que voc faz do passado  espantosa! 
    - Qual o problema, Chase? No consegue encarar a verdade? 
    - Devo esquecer que parei de pedir para que me acompanhasse porque voc detestava ir? 
    Annie ruborizou. 
    - Certo, talvez eu no me importasse com aquelas festas... 
    - Finalmente a mulher admite a verdade! 
    - Por que me importaria? S estvamos l para que voc pudesse ser citado nas sees de negcios dos jornais! 
    - Ns estvamos l, Annie, para que eu pudesse engatar novos negcios. Trabalho, lembra-se? Aquilo que no fim coloca comida na mesa? 
    - D um tempo, Chase! Tnhamos muito dinheiro nessa poca. Voc apenas... apenas estava afagando o seu ego. 
    Ele sentiu um msculo se mexer no rosto. 
    - Continue - incentivou. - O que mais guardou a nesses anos? 
    - Quando eu finalmente disse que no queria mais ir, ao invs de me fazer mudar de idia, que seria a atitude de um homem inteligente, o que voc fez? 
    Chase riu. 
    - Estamos falando o mesmo idioma aqui ou o qu? 
    - Ao invs de tentar me convencer, voc simplesmente encolheu os ombros e concordou. Foi assim. 
    - Est me dizendo que eu deveria insistir para que voc fizesse algo que evidentemente odiava? 
    - No aja como se no estivesse entendendo o que eu estou dizendo, Chase. Eu no vou aceitar. 
    - E eu no vou aceitar que me transforme em algum tipo de homem das cavernas, que fica contente quando a esposa est ausente porque pode acompanhar a turma dos 
solteiros. Nem tente, meu bem, porque no foi o que aconteceu, no importa o que voc diga! 
    - Bem, essa  a sua verso e voc se agarra  ela. 
    - No! No  a minha verso.  um fato. Voc esperava que eu me ajoelhasse e implorasse para que voc ficasse comigo, ao invs das suas apostilas? 
    - Certo. Jogue a culpa em mim, at no fato de eu querer me aprimorar. Isso  tpico. Tudo era culpa minha, nunca sua. 
    - Aprimorar? Se aprimorar? Para qu? Para poder me dizer que sabia mais sobre haiku do que eu sobre construo? 
    - No foi bem assim e voc sabe! Voc no suportava ver que eu estava me transformando em uma pessoa completa ao invs da simples sra. Cooper 
    - Ser minha esposa no era o suficiente para faz-Ia feliz. 
    - Ser a mulher que cozinhava, limpava a sua casa, criava a sua filha, quer dizer. Que esperava em casa enquanto voc construa o seu imprio. Que ia comprar 
roupas e jias para comparecer aos eventos compatvel com a importncia do marido! 
    - Se  nisso que acredita. Se acha realmente que  isso o que voc significava para mim, ento foi muito bom o nosso casamento ter acabado. 
    Annie avaliou o rosto plido de Chase. 
    - Chase - invocou, e estendeu a mo, mas era tarde demais. 
    Ele j havia lhe dado as costas e desaparecido no corredor. 
    Bem mais tarde, Chase voltou e bateu na porta aberta do quarto. - Entre - disse Annie, educada. 
    Ele avanou pelo ambiente. 
    Annie estava sentada na cadeira de balano, os dedos entreecruzados. Tinha o rosto plido, mas ela parecia calma e at sorriu ao v-lo. 
    - Oi. 
    - Oi. 
    - Foi dar uma volta? 
    - Sim; fui. - Ele hesitou. - Oua, sobre tudo o que dissemos antes. Eu peo desculpas... 
    - Eu tambm. No adianta discutir sobre o passado. Chase assentiu. 
    - No adianta. 
    Ambos sorriram. 
    - Aposto que a ilha  maravilhosa - comentou Annie. 
    - . J estive aqui antes. Tanaka comprou-a de algum bilionrio da rea de computao. Ele me trouxe aqui logo aps assinar o contrato de compra. Ele queria 
saber o que eu achava sobre os planos dele. 
    - Que planos? - especulou Annie. 
    - Ele vai transformar todo o lugar, quer construir uma espcie de retiro. 
    - Ah. - Ela baixou o olhar e tirou um fiapo da cala jeans. 
    - Budista? 
    Chase sorriu. 
    - Um hotel de alta classe, eu diria. O que ele tem em mente  um tipo de esconderijo para equipes de executivos. Voc conhece o estilo: elegante, mas rstico. 
Comida simples, preparada por um chef. Sutes simples, com banheiras e um barzinho em cada sala de estar. Prazeres simples, a comear por um campo de golfe de nove 
buracos, quadras de tnis e uma piscina olmpica. 
    - Uma verso maior e mais elaborada desta cabana, quer dizer. 
    - Isso mesmo. - Chase sorriu. -  incrvel, no? 
    - . E voc vai construir essa Shangri-l para ele? 
    - Bem, no exatamente como ele vislumbrou. Eu disse a ele que estaria arruinando a beleza da terra e do mar, se exagerasse no luxo. 
    - Nada de barzinhos? Chase riu. 
    - E nada de sutes, campos de golfe, quadras de tnis. Para que uma piscina se o mar est logo a? 
    - Praticamente, j se tem uma piscina na banheira - comentou Annie, sorrindo. - D para ver que  para mais de uma pessoa... - Ruborizou e desviou o olhar. 
    - ... aposto como teve de argumentar muito para convenc-lo. 
    Chase encolheu os ombros. 
    - Bem, levou algum tempo, sim. 
    O silncio tomou o ambiente. Finalmente, Annie manifestou-se. - Chase? 
    - Sim? 
    - Bem... bem... - Ela respirou fundo. - Oua, eu sei que vai ser embaraoso admitir ao sr. Tanaka que voc e eu acabamos juntos no avio por engano, mas acho 
que vai ter que contar tudo. Diga o que quiser. O que for mais fcil. Jogue a culpa em mim, se quiser. Diga que eu de repente me lembrei de algo muito importante 
para fazer em casa. 
    - Posso dizer que se esqueceu de seu noivo - sugeriu Chase. 
    - Que lhe parece? 
    Annie recusou-se a reconhecer a sutileza do golpe. 
    - No me importo com o que diga. Apenas... apenas me tire desta ilha, por favor. 
    Chase assentiu. Annie tinha razo. Os dois precisavam sair daquele local. 
    - Vou cuidar disso. 
    - Voc pode contar outra coisa - disparou Annie, quando ele ja estava junto  porta.- Que voc precisa voltar para a sua noiva, tambm. 
    Chase olhou para a ex-esposa sentada na beirada da cadeira, de pernas cruzadas, com os raios do sol da tarde incidindo sobre os cabelos, deixando-os dourados. 
Ela parecia muito suave, doce e incrivelmente vulnervel. Imaginou-se indo at ela, tomando-a nos braos, beijando-a e dizendo-lhe que ela era a nica mulher que 
ja desejara, a nica mulher que j amara. 
    - Chase? 
    - Bem, a questo  que ambos esquecemos um fato. 
    - Eu acho que no - afirmou Annie, tentando suprimir as lgrimas que teimavam em brotar. - Acredite em mim, Chase, no nos esquecemos de nada. 
    - No h vos at amanh, meu bem. Nem quartos de hotel. 
    - Oh! - Annie mordeu o lbio. - Est bem. Vou esperar no aeroporto. 
    - No  uma boa idia. 
    -  uma tima idia. - Annie sorriu, animada. - Sempre gostei de aeroportos. Posso comprar meia dzia de revistas e um cachorro quente, arrumar um cantinho e... 
    - Oua, vamos ficar onde estamos. Mas vamos comear tudo de novo. Novas regras. No vamos falar sobre o passado, nem sobre ns. Certo? 
    - O passado e ns so as nicas coisas que temos - ponderou Annie. - No consigo imaginar como poderemos evitar esses assuntos. 
    Chase olhou para ela por alguns segundos. Ento, suspirou e passou a mo nos cabelos. 
    - Vou atrs do rapaz que nos trouxe aqui. Ele pode nos levar para o continente. A, telefonarei para Tanaka e verei se ele pode arranjar um quarto em algum lugar. 
Ou, ento, eu fico com voc no aeroporto at que possa embarcar. 
    - No ser preciso. 
    - Oua, podemos discutir isso depois. Nesse momento, deixe-me apenas acionar as pessoas. 
    - O que vai dizer a ele? Ao sr. Tanaka? Sobre o motivo de querermos deixar a ilha, quero dizer? 
    Ele franziu o lbio. 
    - No comece a se preocupar sobre como eu conduzo os asssuntos, Annie. Esse  meu problema, no seu. 
    Chase saiu do quarto e fechou a porta. Annie recostou-se na cadeira de balano. Estava trmula, sentia vontade de chorar, o que era uma estupidez. Isso s provava 
que estivera sob presso nos ltimos dias. 
    Respirou fundo, comeou a se embalar na cadeira de balano e tentou esquecer aquela ilha, Chase e uma centena de lembranas indesejveis. 
    - Ele foi embora. 
    - Annie abriu os olhos e piscou. 
    - Quem? - indagou com a voz rouca. Franziu o cenho e esfregou os olhos com as mos. - Quem foi embora? 
    Chase recostou-se na parede e cruzou os braos. Seu semblante parecia esculpido em granito. 
    - O homem que nos trouxe aqui. Annie sentia a cabea rodar. 
    - No estou... no estou entendendo. Est falando do piloto do barco? 
    - Esse mesmo. 
    - Como pode ter ido embora? Para onde ele foi? Ele no podia ter nos abandonado... - Annie prendeu a respirao ao ver a expresso de Chase. - Voc quer dizer 
que ele levou o barco? - Exatamente. 
    Annie olhou fIxo para ele. - Estamos presos aqui? 
    - Totalmente. 
    - Bem... bem, telefone para o sr. Tanaka. Diga-lhe que ... 
    - J tentei ligar. 
    - E? 
    - No h telefone aqui, s um tipo de sistema de rdio. 
    - E? 
    - Parece que no est funcionando. 
    Annie mordeu o lbio e esforou-se para no ficar histrica. - Se  alguma brincadeira sua, Chase... 
    - Parece que estou brincando? - Chase olhou-a srio. - O piloto deixou um bilhete, na cozinha. Parece que fIcaremos aqui at amanh. 
    - No  possvel. Por que ele nos deixaria aqui? 
    - No sei por qu. Nem me importo. S o que sei  que vamos ter de fIcar aqui at amanh s oito horas, quando o barco volta. - s oito - repetiu Annie, mecanicamente. 
Olhou para o relgio. Dezesseis horas para matar. Dezesseis horas sozinha com o ex-marido. 
    - Entenda - declarou Chase. Annie ergueu o olhar. - Essa situao. Este ... este hotel de lua-de-mel. Asseguro-lhe no foi idia minha. 
    - Eu espero que no, pois, se tiver sido, vai fIcar decepcionado ... Annie prendeu a respirao quando Chase segurou-lhe os ombros e fez com que se levantasse. 
    - Querida, j absorvi a minha cota mxima de insultos! Garanto-lhe, no estou to desesperado por uma mulher na cama a ponto de armar todo esse esquema. 
    Ele estava sendo sincero. A acusao era sem propsito. Chase no teria conseguido aquele fiasco se tivesse planejado tudo. 
    E tinha razo quanto a todo o resto tambm. No precisava de subterfgios para levar uma mulher para a cama. Ele era... como Deb falara no dia do casamento de 
Dawn? Bonito, isso mesmo. Era bonito e sempre fora, especialmente agora, no apogeu. Chase era o tipo de homem que fazia com que as mulheres se  voltassem para 
v-Io sem mesmo jogar charme. 
    No era de admirar sua presena constante nas colunas sociais, sempre acompanhado de alguma beldade. 
    Como Janet Pendleton, que seria sua esposa. 
    Annie sentiu uma aspereza na garganta. Era tolice, mas sentiu vontade de chorar. 
    - Voc tem razo - admitiu. 
    - Pode apostar que sim! 
    - Isso tudo, o embarque no avio em primeiro lugar e agora o fato de estarmos presos aqui ... como se diz mesmo? Karma. 
    Chase mal podia acreditar. Annie estava segurando uma bandeira branca? Era impensvel, mas, tambm, muitos dos acontecimentos nas ltimas quarenta e oito horas 
caam na mesma categoria. Se era uma bandeira branca, o que perderia aceitando a trgua? Se ia passar a noite na cadeira de balano, seria muito melhor para os dois 
se no tivessem que dormir com um olho aberto. 
    - Karma - repetiu ele, tirando as mos dos ombros dela. No me diga. Fez algum curso sobre religies orientais. 
    Annie sorriu e balanou a cabea. 
    - Comprei um computador. Foi o que o tcnico disse. Os computadores funcionam bem ou no funcionam de jeito nenhum. Isso  karma. 
    - Comprou um computador? 
    - Para os negcios. Mas tambm pode ser divertido. Navegar na Internet, essas coisas. 
    - Quem a ensinou a usar? Hoffman? 
    - Eu aprendi sozinha. Bem, com alguma ajuda de Dawn. 
    - Verdade: - Chase sorriu. - Talvez um dia possa me dar algumas dicas. Ainda me perco com qualquer coisa mais complicada do que uma planilha. 
    - Claro. 
    Eles se olharam e, ento, Chase olhou ao redor exageradamente. - Lamento tudo isso. As acomodaes, quero dizer. Nunca imaginei que Tanaka fosse nos deixar aqui. 
    - E pequeno, admito. - Annie sorriu. - Mas  muito bonito tambm. Talvez os hotis sejam assim, l de onde ele vem. 
    Chase sorriu. 
    - Ele  de Dallas, meu bem... Quero dizer, Annie. Sabe, acho que ele imaginou que ns queramos passar algum tempo juntos. 
    Annie sorriu. 
    - Cupido Tanaka? 
    - Assim parece. 
    Novamente, o silncio se instalou entre eles. Annie sentou-se na beirada da cadeira de balano. 
    - Ento, o que vai fazer? Demolir esta casa e construir um retiro do nada? 
    - Mais ou menos. 
    - Aposto que o resultado final vai ser espetacular,
    - Habitvel, de qualquer forma - garantiu Chase. Annie sorriu. 
    - No seja modesto, Chase. Eu sei que o seu trabalho  bem conceituado. Vejo o seu nome,  o nome da construtora, nos jornais o tempo todo. Voc levou a empresa 
ao topo. 
    -  o que dizem. - O tom dele era indiferente, bem como o sorriso. 
    - Voc no est feliz? 
    - Voc est? 
    Ela o encarou. Por que hesitava? Claro que estava feliz. Tinha sua casa. Seu trabalho, Amigos. Interesses. Uma vida confortvel, no uma em que deveria desempenhar 
um papel. 
    -Annie? 
    Ela ergueu o olhar, Chase aproximara-se. S precisava estender a mo se quisesse toc-Ia. 
    - Voc  feliz? - perguntou ele, suave. Annie queria dizer que era. Queria dizer a ele o que acabara de mentalizar. Queria descrever como era seu dia a dia. 
    Ao invs disso, s conseguia pensar em como era maravilhoso quando se beijavam. 
    - Claro, nunca estive mais feliz em minha vida - declarou, forando um sorriso. 
    Chase ficou srio. 
    - Ento, voc est feliz com sua empresa e com seu noivo. Annie assentiu; 
    - Assim como voc. 
    - Isso mesmo. 
    Fitaram-se por algum tempo: Ento, Chase caminhou at a porta. 
    - Bem, vou vasculhar a cozinha. Deve haver refeies prontas na geladeira ou no congelador. 
    - Sempre prtico, hein? At aqui. 
    - Todo mundo tem conceitos diferentes sobre o que  dureza, acho. 
    - Estou vendo. Se me dissesse que acabaramos em uma cabana, longe da civilizao, eu imaginaria uma cabana de um s cmodo, com um fogo a gs na varanda e 
banheiro nos fundos. 
    Chase sorriu.  
    - Como o local que alugamos no primeiro vero juntos? Lembra-se? O chuveiro ao ar livre, a fossa. 
    Annie riu. 
    - Como posso me esquecer? Compramos aquele conjunto de panelas que se encaixavam umas nas outras e os sacos de dormir... 
    - Como ramos bobos! - comentou Chase, rindo tambm. Gastamos, quanto ... uma hora ou mais, imaginando uma forma de juntar os dois sacos, pois no queramos 
dormir separados... - Deixou o assunto morrer. - Sabe, fazia tempo que no pensava naquele fim de semana. 
    Annie tambm sentiu um n na garganta ao reviver os detalhes divertidos. 
    - Eu ... eu acho que vou tomar um banho - informou. - E depois .. , e depois, talvez saia para dar uma volta, S para desaanuviar a mente. Falta muito para eu 
poder embarcar e ... e tudo est acontecendo to rpido.
    - Sim, Claro. - Chase engoliu em seco: - V em frente. 
    Tome um banho, d um passeio. Eu vou verificar os suprimentos. - Volto para ajud-Io daqui a pouco. - Ela deu um sorriso confiante. 
    - Gostaria de ter uma escova de cabelo e um batom. Sinto-me um caco. 
    Chase pensou em dizer-lhe a verdade, que ela no precisava de maquiagem nenhuma, pois j era a mulher mais linda que j vira. 
    No entanto, saiu para o corredor e afastou-se da tentao o mais rpido que conseguiu, sem correr. 
    
    
    CAPTULO OITO
    
    Chase olhou para o relgio. o Hotel Tanaka no era to perfeito quanto parecia, pensou contrariado. A geladeira estava vazia. Algum devia ter passado ali e 
levado tudo, j pensando na desativao da cabana.
    Mas havia alguns mantimentos e ele ps-se a descascar batatas e cebolas. o pensamento mantinha-se longe, entretanto. Fazia quinze minutos que ouvira a porta 
da frente de fechar, anunciando que Annie sara para sua caminhada. 
    Talvez devesse ir atrs dela. No que houvesse animais selvaagens de grande porte por ali. Aigumas cobras, talvez, e aranhas. Definitivamente, havia aranhas 
na ilha. Vira muitas delas quando estivera ali pela primeira vez, mas eram todas inofensivas, apesar de assustadoras. Sabia que Annie tinha horror a esses animais 
inferiores. 
    Lembrou-se do inverno em que assinara seu primeiro grande contrato. Chegara em casa com uma rosa perfeita para Annie, uma caixa de bombons, o contrato que justificava 
todos os sacriifcios que eles estavam fazendo e as reservas do pacote de turismo nas ilhas Virgens. 
    - Tem a cor dos seus olhos - sussurrara ele ao ouvido de Annie, enquanto contemplavam o mar. O quarto de hotel, comparado  sute na ilha de Tanaka, era mesmo 
lamentvel, mas... oh, como tinham sido felizes! 
    - Ai. 
    Chase voltou-se. Annie estava junto  porta, sorrindo, e foi com esforo que ele deixou de ir a seu encontro, abra-Ia e dizer que ... dizer que ... 
    - Desculpe-me por ter demorado tanto, mas perdi a noo do tempo. 
    Chase soltou o ar dos pulmes e desviou o olhar. 
    - Foi muita longe? - indagou, com uma casualidade que no sentia. 
    - Caminhei entre as rvores. - Annie aproximou-se, viu as batatas e cebalas e pegau uma faca. - Este lugar  maravilhoso. Detesto saber que logo ficar cheio 
de executivos por aqui. 
    Chase forou um sorriso. 
    - No vo usar terno. Vo usar bermudas, telefones celulares e microcomputadores portteis. 
    Annie riu, pegou uma batata e comeou a descasc-Ia. 
    - Grande diferena. - Trabalharam em silncio par alguns minutos e, ento, ela se manifestou mais uma vez. - Eu vi uma aranha interessante no atracadouro. 
    Chase ergueu o olhar. 
    - Que estranho. Estava mesmo pensando sobre... Voc disse"interessante"? 
    - Isso mesmo. Era grande, sabe.... Impressionante. 
    - Impressionante? E voc no gritou? Pelo que me lembro, voc nunca foi f desses seres inofensivos. 
    Annie soprou para afastar uma mecha rebelde da testa. - No sou. Mas assisti a um curso na ano passado... 
    - Por que no estou surpreso? 
    - Era sobre insetos - especificou ela, com dignidade. 
    Aquilo, sim, o surpreendia. 
    - Voc? Fazendo um curso sobre insetos? Annie ruborizou. 
    - Bem, por que no? Conclu que era estupidez ficar assustada 
    com seres com mais de quatro pernas. Decidi que, talvez, se entendesse esses animais melhar, poderia no saltar  simples viso de uma formiga. 
    - E? 
    - E aprendi a respeitar as seres que rastejam. Eles esto em 
    maior nmero na Terra e tambm a ocupam h mais tempo do que ns. 
    Chase assentiu. 
    - Estou quase ouvindo o "mas"... 
    - Mas ainda no estou pronta para um relacionamento com qualquer coisa que precise de oito pernas para andar. 
    Chase riu. 
    -  bom saber que algumas coisas jamais mudam. 
    Annie sorriu. 
    - Sim.  bom. 
    Trabalharam em silncio por mais alguns minutos, Annie descascando as batatas, Chase fatiando as cebolas. 
    Ento, Chase comeou: - Annie? 
    -Hummm? 
    - Eu queria dizer-lhe... Espero que saiba... - Engoliu em seco. 
    - No tive a inteno de dizer o que disse h pouca. Sobre voc 
    freqentar todos esses cursos para me diminuir, quero dizer. 
    Annie sentiu o calor nas faces. - Tudo bem. 
    - No. No est bem. Eu sei que voc gosta de aprender sobre 
    todos esses assuntos. A poesia, a arte ...  s que no me interessam. Ora, se esse tipo de matria fosse obrigatria para a abteno do ttulo de engenheiro, 
eu nunca teria me formado. Provavelmente, teria que cavar valas para ganhar a vida. 
    Annie sorriu e balanou a cabea. 
    - Voc sabe que no  verdade. Mas tem razo... quero dizer,  eu no estudava aquelas matrias s porque voc no gostava. Eu realmente aprecio poesia, arte 
e todos os outros assuntos. Baixau a cabea, para que os cabelos escondessem seu rosto. Mas tenho que admitir que, quando voc se mostrou confuso diante de uma poesia 
do sculo dezoito, senti algum prazer. - Ergueu a olhar. - No porque me senti mais esperta ou coisa assim, mas porque... porque era um modo de provar que podia 
ter uma vida prpria, entende? Que, mesmo sendo apenas uma dona-de-casa, eu no era... 
    - S uma dona-de-casa? 
    Annie encolheu os ombros e pegou outra batata. - Era isso o que eu era. 
    - S uma dona-de-casa - repetiu ele, e riu. -  uma descrio limitada para a mulher que mantinha a casa funcionando sem atropelas, que educava a fIlha, que 
entretia todos os palhaos que eu precisava agradar enquanto tentava manter a Construtara Cooper em atividade. 
    - Acho que desperdicei muito tempo tendo pena de mim mesma. 
    - No foi o que eu quis dizer. Se algum desperdiou tempo, meu bem, fui eu. Devia ter-lhe contado o quanto estava orgulhoso de tudo o que voc fazia. Mas estava 
ocupado demais batendo nas minhas prprias costos, me parabenizando por estar levando a empresa a um patamar que ningum da minha famlia imaginara. Em algo que... 
    Em algo que a deixaria orgulhosa de mim, pensou, mas no disse. Era tarde demais para falar sobre isso. 
    - Bem, isso no importa mais - desconversou. - So guas passadas. Pelo menos, agora sei que no assistia a todas aquelas aulas s para ficar longe de mim. 
    - Voc no ficava em casa tempo suficiente para eu me preocupar em fugir de voc - replicou Annie, um pouco tensa. 
    - Voc j poderia ter uin diploma, a esta altura - observou ele, evitando o campo minado. - Se tivesse escolhido uma rea, quero dizer. 
    - Eu no preciso. Todos os cursos avulsos foram de utilidade. 
    Minha empresa  um sucesso, Chase. Precisei contratar mais pessoas e agora vou me concentrar em paisagismo. 
    - Isso  maravilhoso. 
    - A verdade  que eu nunca quis um diploma. S queria aprender um pouco mais sobre vrios assuntos. Ampliar minha viso do mundo, entende? 
    - No havia nada de errado com a sua viso anterior - garantiu Chase. 
    - Claro que havia! Tenho apenas o diploma do colgio... Chase largou a faca e pegou-a pelos ombros. 
    - Voc era a primeira da classe! O nico motivo de no ter ido para a universidade foi porque nos casamos. 
    - Eu sei. Mas... 
    - Conversamos sobre isso, lembra-se? Conclumos que no seria 
    possvel ambos irmos para a universidade e tambm nos casarmos. Ento, s eu fui. Voc, no. Voc arrumou aquele emprego miservel na lanchonete... 
    - Eu no abri mo de nada. Eu quis assim. 
    - Tudo o que tivemos... tudo o que tenho, hoje... eu devo a voc. 
    - Voc no me deve nada,.Chase. - Annie respirou fundo. Eu queria muito mais me casar com voc do que um diploma. 
    - Oh, Annie... - A voz de Chase saiu rouca. Ele acariciou o pescoo dela e enterrou os dedos em seus cabelos, fazendo-a inclinar a cabea. - Eu tambm s pensava 
nisso. Em me casar com voc. Em faz-Ia minha. Ento, agi de forma egosta. 
    - No, voc no foi egosta! 
    - Fui, sim! - Ele a fitou no rosto. - Eu permiti que voc abrisse mo de seus sonhos e esperanas para que eu alcanasse o meu objetivo. 
    - Era importante para voc. Tornar-se um engenheiro, montar sua prpria empresa... 
    - O meu sonho era ter voc. S voc. Quando consegui chegar aonde queria, quis lhe dar tudo de que voc abriu mo para que pudssemos nos casar, quis recompens-Ia 
pelo sacrifcio. 
    - No fiz sacrifcio algum - afirmou Annie, as lgrimas brotando. - Eu amava voc, Chase. Eu queria ajud-Io a chegar aonde queria. 
    - Eu s queria que voc tivesse orgulho de mim. Ficaram em silncio. 
    Se eu soubesse na ocasio, pensou Annie... 
    Se eu entendesse na ocasio, pensou Chase. 
    Seria tarde demais?   imaginou ele.  Podia-se voltar no tempo? 
    Ser que aquela mulher linda e confiante em seus braos estaria disposta a tentar novamente? 
            Seria tarde demais?, imaginou Annie. Eram duas pessoas diiferentes agora. 
    E havia Janet Pendleton. A mulher com quem Chase estava comprometido. A mulher que ele amava. Via arrependimento no olhar dele pela dor que haviam infligido 
um ao outro no passado, e via compaixo... mas amor, no. 
    No mais. 
    - Annie... eu sinto muito. 
    - No se lamente - apressou-se ela. - No adianta nada.  leite derramado, sabe?  perda de tempo lamentar por isso. 
    - No  to simples assim. 
    - Mas .  muito simples. Parece que estarmos aqui juntos por algum tempo foi uma boa idia, afinal. 
    - Sim. Concordo. 
    - Ns nunca teramos outra chance de esclarecer o passado, 
    - Voc me perdoa por t-Ia magoado? 
    ~ Claro. Se voc me perdoar tambm, pois eu tambm tive culpa. Ento, ns poderemos continuar nossas vidas. Com... com os nossos novos relacionamentos. 
    A leve chama de esperana que Chase mantinha no corao se 
    extinguiu. 
    - Milton Hoffman. 
    - E Janet Pendleton. 
    Chase via o brilho no sorriso e no olhar de Annie. Era engraado, mas havia poucos minutos, enganara-se pensando ele era o motivo daquele estado de esprito. 
    - Temos sorte - comentou Annie. - Algumas pessoas nunca encontram o amor, mas ns... ns o encontramos duas vezes. 
    Chase olhou para a estranha que um dia fora sua esposa. 
    -  verdade - confirmou ele, acariciando-lhe o cabelo pois simplesmente no conseguia evitar o movimento. - Temos muita sorte, ns dois. 
    Ele votou a fatiar cebolas. 
    - Malditas cebolas - praguejou Annie, fungando. - Voc est cortando, mas eu estou sofrendo os efeitos. No  ridculo? 
    Chase, perdido em pensamentos, assentiu. - . 
    - Mas o que vamos jantar? - quis saber Annie. - Torta de batata e cebola? 
    De algum modo, Chase conseguiu concentrar-se nos problemas mundanos. Largou a faca e abriu a porta de um dos armrios. - Voil - anunciou ele, e voltou-se para 
que Annie pudesse ver a latinha circular. 
    - Atum?  isso? Isso foi tudo o que conseguiu encontrar nessa cozinha? 
    - Tem outras iguaizinhas a essa. 
    - No acredito. Tudo o que o sr. Tanaka come  atum em lata? 
    - Acho que sushi no dura tanto no armrio. - Chase sorriu. 
    - Topa? 
    - Tem certeza de que no h mais nada? 
    - Latas de leite em p. Uma lata de leo de milho. Sopa... 
    - Creme de cogumelos? - perguntou Annie, esperanosa. 
    - Hum, acho que sim. 
    Annie suspirou: - Pegue a sopa e o leite em p, Cooper.  Depois, fique de lado e d espao para a expert aqui trabalhar. 
    - Est me dizendo que pode preparar alguma coisa gostosa com isso? 
    - Posso tentar. 
    Chase sorriu enquanto retirava as outras latas e envelopes das prateleiras. 
    - Devia saber. Quase me esqueci o quanto era criativa com as panelas nos primeiros anos do nosso casamento. 
    - Criativa? 
    - Deixe-me lembrar... Batata frita, batata cozida, salada de batata, batatas grelhadas... Agora, diga-me, qual o cardpio desta noite? 
    -         Que tal Atum Surpresa? 
    Annie despejou leo na frigideira e foi ao fogo. Ao passar por Chase; seus seios roaram contra o brao de Chase e ele ficou imediatamente excitado. Sentiu 
desejo, sentiu necessidade de t-Ia s para si. Seu sangue corria quente. 
    Recuou e, ao fazer isso, esbarrou na faca, que caiu no cho. - Bolas! - praguejou. 
    A imagem de Hoffman surgiu em seu pensamento. Hotfman, que no a amava tanto quanto ele. Porque ele, sim, realmente a amava. No novamente, mas ainda. Nunca 
deixara de am-Ia e era hora de admitir isso. 
    - Annie - chamou, com voz grave. 
    Annie ergueu o olhar. Parecia que a temperatura da cozinha subira dez graus. 
    A mensagem estava ali, no olhar de Chase. Annie sentiu o corao disparar. Convenceu-se de que estava fazendo papel de tola. Aquela expresso tinha origem em 
Janet, que aguardava Chase em Nova York. 
    - Annie? - sussurrou Chase. 
    Ele avanou em sua direo, os olhos obscuros. Um cheiro de leo queimado invadiu o ambiente. 
    Annie voltou-se, tirou a frigideira do fogo e largou-a na pia. - Teremos que comear de novo - anunciou ela, com uma risada nervosa. Olhou para Chase. - A comida, 
quero dizer. 
    Chase assentiu. Ento, deram-se as costas e fingiram estar ocupados com os preparativos do jantar. 
    Quando a refeio ficou pronta, arrumaram-na sobre a mesa baixa na sala e sentaram-se de pernas cruzadas sobre as almofadas. Jantaram em silncio, como se fossem 
estranhos obrigados a partilhar uma mesa de restaurante na hora de maior movimento. 
    Lavaram a loua e, depois, Annie pegou uma revista. Chase foi dar um passeio. 
    Annie folheou a revista, mas no conseguiu se concentrar. Havia a noite toda pela frente. Ela e Chase, dividindo a cabana. E o quarto. 
    Como enfrentaria essa situao? 
    Levou um susto quando Chase entrou na sala. 
    - Desculpe-me - declarou ele. - No pretendia assust-Ia. 
    - Tudo bem. - Ela pousou as mos sobre a revista fechada. 
    - Estava pensando... Quero dizer, ocorreu-me... 
    - O qu? 
    Annie respirou fundo. 
    - Bem, h uma vantagem em estarmos aqui sozinhos. Chase a encarou. Seu olhar brilhava como carvo em brasa. 
    - Definitivamente, h uma vantagem.  
    No havia dvida sobre a interpretao dele. 
    - O que quero dizer  que no h ningum aqui para presenciar o que fazemos. No precisaremos explicar a ningum... No me olhe assim - sussurrou ela. 
    Chase fechou a porta, sem deixar de encar-Ia. - Voc quer fazer amor? 
    - No! Eu no disse... 
    - Eu quero voc, Annie. 
    Annie conhecia aquele olhar. Outrora, naquela situao, Annie sempre sentia os seios intumescidos, os mamilos roando no suti, a umidade surgindo entre as coxas 
... 
    - Meu bem, eu a quero tanto que nem consigo raciocinar direito. 
    - No podemos ... 
    - Por qu? Somos adultos. Quem vai se magoar se fizermos o que temos vontade? 
    Eu, pensou ela, pois, se for para a cama com voc, serei forada a admitir a verdade a mim mesma, serei forada a admitir que ainda... que ainda... 
    - No... No seria justo com... com Milton. 
    - Milton - repetiu Chase, como se fosse uma obscenidade. 
    - Isso mesmo, Milton. Estou noiva e voc tambm. O que eu estava querendo dizer  que ningum vai ficar sabendo que ns no dormimos no mesmo quarto. 
    - Entendo. 
    - Com certeza, nessa casa h outro lugar ... 
    - No h. 
    - No? 
    - Olhe ao redor. No h sof, nem cadeira, exceto a que est no quarto. 
    Annie olhou para o teto. 
    - Bem, o que h no segundo ... 
    - Est vendo alguma escada? 
    - Bem ... No, no estou vendo. Mas ... 
    -  porque no h aposentos l em cima, somente o sto. E morcegos. 
    - Em outras palavras, est me dizendo que teremos que nos arranjar aqui mesmo? 
    - Brilhante deduo. 
    - Oua, Cooper, no se faa de superior! No fui eu que nos meteu nessa cabana e no se esquea disso. 
    - No, eu no vou me esquecer. Se voc tivesse sido mais enrgica com nossa filha, proibindo-a de se casar com Nick ... 
    - Basta - concluiu Annie, e passou por ele. 
    - No me deixe falando sozinho. 
    - Vou procurar outra revista para ler. At o rtulo de enlatados deve ser melhor do que conversar com voc. 
    - Tem razo - rebateu Chase. - Posso at arriscar e tentar voltar a nado para a terra. Qualquer coisa deve ser melhor do que ficar aqui com voc! 
    Annie sentou-se na cadeira de balano e olhou para o relgio. Chase sara havia bastante tempo. Com certeza, ele no estava falando srio sobre nadar de volta... 
    A porta do quarto se abriu e ela ergueu o olhar. 
    - Desculpe-me - murmurou Chase. - Devia ter batido. 
    - Tudo bem. Eu s estava sentada aqui ... pensando . 
    - Foi um longo dia. No sei quanto a voc, mas s quero me deitar e dormir um pouco. 
    - Estava pensando nisso. Sobre o esquema da hora de dormir. Ns podemos partilhar o quarto. 
    - Ns vamos partilhar o quarto. Pensei que tivesse deixado isso claro. No h outra alternativa. 
    - Voc deixou. E eu... eu concordo. No tem problema. A cama  grande o bastante. - Annie sentou-se na beirada da cama. Eu ficarei do lado direito. Voc pode 
ocupar... O que est fazendo? 
    Chase estava abrindo as portas do guarda-roupa. 
    - Deve haver roupa de cama em algum lugar... - Tirou dois cobertores. Entregou um a Annie e estendeu o outro sobre a cadeira de balano. 
    - Vai dormir na cadeira? - questionou ela. 
    - Isso mesmo. No quero macular a sua reputao. 
    - Chase, por favor. Eu nunca quis dizer ... 
                    Ele estendeu a mo e apagou a luz. Annie sentiu as lgrimas brotarem. 
    - Chase? 
    - O qu? 
    - Nada - disfarou  ela, e rolou de lado. 
    Eu te amo, pensou ela. 
    - Boa noite, Annie. - Chase podia sentir o perfume dela, e ouvir sua respirao. Tudo o que tinha a fazer era estender a mo e sentir sua pele clida e sedosa. 
    Como conseguiria sobreviver quela noite? 
    
    
    CAPTULO NOVE
    
    Chase acordou assustado. Estava tudo escuro. Podia ouvir a leve batida da chuva no telhado. 
    Onde estava? No em casa, com certeza. 
    A compreenso chegou como um relmpago. O vo para Seattle. 
    O barco. A ilha. A cabana. O quarto ... 
    Este quarto. 
    E Annie. Annie dormindo a poucos centmetros dele. 
    No pense em Annie. Pense em outra coisa. Qualquer coisa. Fez uma careta Apoiou-se nos braos da cadeira de balano e endireitou-se. Esse tipo de mvel definitivamente 
no servia para dormir. Tateou pelo cho e localizou o cobertor. Que horas seriam? Levantou o brao e olhou para o local onde o relgio deveria estar. A luz estava 
fraca e precisou estreitar o olhar para ver. Deviam ser trs ou quatro horas da manh... 
    Ora! Onze e vinte e cinco, ainda! Dormira apenas duas horas! Bolas, a quem estava enganando? No fora a cadeira, no fora o frio, no fora a chuva que o acordara. 
    O motivo puro e simples era Annie. 
    Como poderia atravessar a noite trancado naquele quarto com ela? . 
    Tinha que se concentrar na realidade. Annie estava apaixonada por outro homem e, se ele no sentia o mesmo por Janet, bem, poderia vir a sentir. Iria sentir. 
Era s deixar acontecer. Ento, a histria de Annie e Chase estaria encerrada, de uma vez por todas. 
    Dawn j era adulta. Ela entenderia que avida no  um conto de fadas que se acaba com a sentena "e eles viveram felizes para sempre". 
    Chase suspirou. J se sentia melhor. No ficaria mais sonhando acordado, nem dormindo. Ora, o sonho que o despertara havia pouco no se tornaria realidade mesmo. 
Annie no acordaria sussurrando seu nome... 
    - Chase? 
    A voz de Annie saiu to suave e doce quanto uma manh de vero. 
    - Chase? Voc est acordado? 
    Por que ela fazia essa pergunta? No estava ouvindo seu corao batendo alto? 
    Chase limpou a garganta. 
    - Oi - saudou. - Desculpe-me se acordei voc. Annie balanou a cabea. 
    - Voc no acordou.  que eu tive um sonho tolo ... - Deteve-se e agradeceu por estarem no escuro, assim ele no poderia ver que ruborizava. 
    - Que sonho? 
    - Eu no me lembro. 
    - Mas voc acaba de dizer... 
    - O que  isso? Chuva? 
    Annie sentou-se na cama e puxou o cobertor. Chase pde ver seus ombros e braos nus. Estaria completamente nua? - , est chovendo. 
    Annie suspirou. 
    - Humm.  bom, no ? Faz aqui dentro ficar muito aconchegante. 
    Aconchegante? Chase quase gemeu. Sim, aconchegante era a palavra. 
    - Que horas so? - quis saber Annie. - J  quase de manh? 
    Eu poderia fazer caf. 
    -  quase meia-noite. 
    - Ainda ... - Annie riu. - Est brincando! 
    - Gostaria de estar. 
    No. No era impossvel. Nunca sobreviveria at o amanhecer, pensou Annie. 
    - Annie? 
    Ela piscou e ergueu a cabea. Acostumara-se  escurido e podia ver Chase mais claramente agora, sentado na cadeira de balano, olhando para ela. 
    - Em que est pensando? -  indagou ele. 
    - Nada, s que... que  espantoso o sr. Tanaka conseguir dormir nessa cama. O colcho parece de ao. 
    Chase riu. 
    - Eu tambm no estou bem nesta cadeira. 
    Annie riu. O som era to tranqilo e leve que Chase teve vontade de rir tambm. O que ela faria se ele fosse at a cama? Se ele tirasse a roupa, afastasse o 
cobertor e se deitasse a seu lado? Sabia que ela tinha o perfume de mel e creme. J sentira o calor em seus seios e ventre ... Os ps e mos eram frios. 
    Sorriu ao lembrar-se. Annie tinha sempre os ps frios! Viviam brincando a respeito. 
    Chase levantou-se. 
    - Tome - disse, e colocou o cobertor sobre a cama. - Fique com este cobertor tambm. Est esfriando aqui. 
    - Eu estou bem. Alm disso, no posso pegar o seu cobertor. 
    - Claro que pode.  
    - E voc? 
    O que ele precisava no era se aquecer e, sim, se resfriar. - Eu, ah, no estou cansado. 
    - No est cansado? Chase, no  possvel. Tivemos um dia 
    terrvel. Um dia interminvel... - Isso mesmo, interminvel. 
    - E voc dormiu s...  umas duas horas? No  suficiente. 
    - Bem, talvez eu no queira virar rosquinha nessa cadeira. 
    - Tem razo. - Annie pegou o cobertor e rapidamente enro- 
    lou-se nele. Chase pde ver a pele clara e mais nada. - Voc fica na cama e eu fico na cadeira. 
    - No seja ridcula. 
    - Eu sou menor. 
    Sem dvida. Ela era menor e mais frgil.  Feminina. O alto de sua cabea mal lhe alcanava o queixo. 
    - Eu posso elevar as pernas e ficarei perfeitamente confortvel, Chase. Voc vai ver. Vamos. Troque de lugar comigo. 
    Trocar de lugar? Ir para uma cama ainda aquecida pelo corpo dela? 
    - No. 
    - Ora, como voc  machista! No  hora de pensar em cavalheirismo. 
    - Basta - sentenciou ele. 
    - O qu? 
    Chase tomou-a pelos ombros, tentando no pensar que estava em contato com a pele macia, e retirou-a gentil mas firmemente do caminho. 
    - Chase?  Onde voc vai? 
    - Fazer caf. V  dormir, Annie. Vejo voc pela manh. 
    A cadeira era uma tortura. Mas ter Annie to perto era algo muito mais terrvel. E ele no era nenhum candidato a  santo. 
    - Homem estpido! - resmungou Annie, quando a porta se fechou. Que ficasse sofrendo, ento, se era o que queria. - Brr... - tremeu, e enfiou-se sob as cobertas. 
    Claro que ele estava desconfortvel na cadeira. Tinha um metro e noventa de altura, quase tudo s msculos. Msculos bem torneados. 
    No havia como negar, ele sempre fora atraente. 
    Bonito, dissera-lhe certa vez, logo aps se casarem. Estavam abraados aps terem feito amor e ela se apoiara no cotovelo, olhara para ele e sorrira. 
    - O qu? - indagara ele,  depois que ela disse que pela primeira vez percebera que ele era bonito. 
    - Tolinha - ralhara ele, rindo. - Homens no so "bonitos". 
    - Por que no? - insistira Annie, e listara seus atributos, beijando-os tambm. O nariz. A boca. O queixo. Os ombros largos. O peito aveludado. O abdmen achatado... 
    - Annie - protestara ele, ofegante e, segundos depois, coloocara-a sobre seu corpo e. a levara s estrelas novamente. 
    Annie abriu os braos e olhou para o teto, ouvindo a chuva. O que estava acontecendo com ela? Primeiro, o sonho que a deixara desejosa e excitada. Agora, aquela 
recordao inoportuna e despropositada. 
    - Pateta - repreendeu-se, em voz alta. No estava apaixonada por Chase. J no admitira isso? Quanto ao sexo... Ora, sexo com ele sempre fora bom. 
    At ele arruinar tudo ao deixar de procur-Ia. 
    At ela arruinar tudo tratando-o  com frieza.
     Annie pousou o brao sobre os olhos. 
    Tudo bem. Ento ela no era to inocente quanto gostaria. Mas Chase a magoara tanto. No se preparara para a dor de v-Io sair de sua vida, nem de encontr-Io 
com a secretria. 
    Nem para a dor de perd-Io. 
    A porta abriu-se. Annie agarrou o cobertor, sentou-se e levou-o at o queixo. Chase estava no vo da porta. A luz dourada do corredor lhe realava a silhueta. 
    - Annie... - A voz dele saiu suave e rouca. Ele entrou no quarto, encarando-a na penumbra. - Eu menti - admitiu.  No foi por causa da cadeira que no consegui 
dormir. Foi por sua causa. 
    Mesmo? Bem,  bom saber que estou fazendo da sua vida um inferno, pensou ela, mas no queria brigar mais. 
    Ela queria o que ele queria. Para que manter a farsa? 
    Eram dois adultos, sozinhos em uma ilha, longe da civilizao. 
    Ir ao encontro de Chase, fazer amor com ele apenas por uma noite, no faria mal a ningum. 
    Ele tem uma noiva, sussurrou uma voz interior. Ele pertence a outra mulher agora. 
    - Annie? Eu quero fazer amor com voc. Eu preciso fazer amor com voc. Diga para eu ir embora, meu bem, e eu irei, se for isso o que realmente quer, mas eu acho 
que no . Acho que voc quer vir para meus braos e experimentar os meus beijos, que nos acaariciemos como antes. 
    Annie largou o cobertor. Soluou de leve e abriu os braos. Chase sussurrou seu nome, tirou a roupa e foi at ela. Beijou-lhe a boca e o pescoo. Beijou-lhe 
a pele macia atrs da orelha e enterrou o rosto na curva entre seu pescoo e ombro, que mais parecia seda. 
    Ela estava vestindo alguma coisa, afinal. Suti e calcinha, de algodo simples, mas ele achou que nunca vira nada to sexy na vida. Nunca tremera tanto para 
retirar-lhe as peas ntimas. 
    - Minha bela Annie - murmurou, quando ela ficou nua em seus braos. 
    - No sou - declarou ela, com a voz rouca. - Estou mais velha. Meu corpo no  mais to bonito quanto antes. 
    Annie prendeu a respirao quando Chase inclinou-se e beijou-lhe a curva do seio. 
    - Voc  perfeita - sussurrou ele, o hlito quente contra a carne. - Est mais linda do que antes. 
    Ele acariciou-lhe os seios, inclinou a cabea e lambeu os mamilos. Era verdade. De moa adorvel, ela passara a mulher bonita. Seu corpo era um clssico da feminilidade, 
com curvas sedutoras e aquecidas de desejo. Annie tinha o perfume de botes de rosa e mel, e o gosto do nctar dos deuses. 
    Ela era um banquete para um homem faminto havia cinco lonngos anos. 
    - Chase ... - sussurrou ela, quando ele comeou a trilhar seu corpo com beijos. Emudeceu quando ele chegou s coxas. - Chase ... - suplicou, novamente. 
    Ele ergueu o olhar. 
    - Nunca me esqueci - declarou ele. - Do seu cheiro. Do seu calor. - Acariciou-lhe as coxas. Devagar, baixou a cabea. - Do seu sabor. 
    Annie gritou quando ele encontrou o que procurava. Fazia tanto tempo. Cinco anos de noites solitrias e dias vazios. Cinco anos desejando Chase sem admitir, 
sonhando com ele, sonhando com isso, e, ento, ter de negar todos os sonhos pela manh. 
    Eu te amo, pensou ela, com ardor. Chase, meu marido, meu amado, eu te adoro! Como posso ter me esquecido disso? 
    Ele a beijou novamente e ela entregou-se ao beijo. Assim que ela voltou  terra, ele posicionou-se sobre ela e introduziu-se com um movimento forte e profundo. 
    - Chase - gritou ela e, dessa vez, quando ela atingiu novamente as alturas, ele a acompanhou, segurando-a firme enquanto retornavam ao longo da espiral do xtase. 
    Antes de adormecer nos braos de Chase, Annie viu a lua crescente pelo teto de vidro. As nuvens dissiparam-se e a chuva cessou. 
    Annie acordou durante a noite com o roar dos lbios de Chase em sua nuca. 
    Parecia que haviam se passado anos. Quantas vezes acordara com seus beijos e carcias? 
    - Nunca deixei de pensar em voc - sussurrou ele. Nunca deixei de amar voc, era o que queria dizer, mas queria estar olhando para ela ao fazer essa declarao, 
para testemunhar sua reao. 
    Por isso, passou a expressar-se com o corpo. Enterrando o rosto junto a seu pescoo, pousou uma das mos no seio e a putra, no ventre, movimentando-se devagar, 
ajustando seus ritmos. Quando ela gritou, ele gemeu. Ento, recomeou a abra-Ia e beij-Ia, at penetr-Ia novamente, com mais firmeza, com o mesmo desejo, s 
que, dessa vez, ela voltou chorando. 
    - Eu machuquei voc? - indagou Chase, apreensivo. 
    Por um segundo, Annie teve vontade de dizer que a dor viria ao amanhecer. Quando a noite seria passado e o sol faria com que tudo no passasse de sonho. 
    Mas isso seria errado. Aquilo era mesmo um sonho e ela sabia disso. Ento, sorriu e disse que no, ele no a machucara.  Suspirou ento e apoiou a cabea contra 
o ombro forte. 
    - Annie? 
    - Hein? 
    - Estive pensando. -Ele a beijou e ela sorriu. - Vamos experimentar a banheira? 
    Annie bocejou preguiosa. 
    - Logo cedo...  
    E adormeceu. 
    Acordaram com o sol da manh e um som de motor de barco. Annie sentou-se na cama com o corao disparado. 
    - O que... ? 
    Chase j vestira a cala e fechava o zper. 
    - Pode deixar, meu bem - avisou ele. - Vou cuidar de tudo . Ela assentiu, levou a mos ao rosto e ajeitou o cabelo. 
    Chase saiu ao corredor, hesitou e voltou. 
    - Annie? - Quando ela ergueu o olhar, ele se inclinou e beijou-a. - Foi uma noite maravilhosa - elogiou, suave. 
    Ela assentiu. - Sim. Foi. 
    Por um instante, ela achou que ele ia dizer mais alguma coisa, mas ele se voltou e pegou a camisa da cadeira, ao mesmo tempo em que algum batia na porta. 
    - J vai - disse Chase. Voltou-se uma ltima vez, pouco antes de abrir a porta. - Maravilhosa - reforou. - E nunca vou me esquecer desta noite. 
    Annie sorriu, embora sentisse as lgrimas brotando. 
    A mensagem de Chase era lisonjeira, precisa e dolorosamente clara. 
    Fora uma noite maravilhosa. Mas j era dia e o que haviam partilhado estava acabado. 
     
    
    CAPTULO DEZ
    Annie desceu os degraus do prdio em que sua irm Laurel morava. Assim que pisou na rua, deu um gritinho e recuou. Que maravilha, pensou, enquanto pesadas gotas 
de chuva incidiam sobre a calada. Era exatamente do que precisava. Um dia quente de agosto e, agora, uma chuva intensa. 
    Annie olhou por sobre o ombro. Podia voltar ao apartamento... 
    No, Laurel j devia ter-se recolhido. Demorara-se bastante, at ver que era tarde e que poderia perder o ltimo trem para Stratham. 
    - Voc est bem? - perguntara a Laurel. 
    - Estou tima - respondera ela. - Agora  s esperar o beb chegar! 
    Nossa, parecia mesmo o dilvio. As pessoas diziam que na costa noroeste chovia forte, mas, na noite que passara l, as gotas caram como carcias de amante. 
    Annie franziu o cenho. Que bobagem! No desperdiara um minuto pensando naquela noite maldita e, agora, de repente, ela surgia sorrateiramente em sua mente. 
    No ia mais pensar naquela noite, nem em Chase. Por que faria isso? No era masoquista para ficar recordando seu pssimo comportamento naquela ilha. 
    Deixara to claro que apreciara o desempenho de Chase que ele acreditara que teriam outra sesso. 
    Ele lhe telefonara com aquela inteno vrias vezes. Conversara com ele na primeira vez, porque sabia que tinham de combinar o que diriam a Dawn quando ela voltasse 
da lua-de- mel no Hava. 
    - O que quer contar a ela? - indagara Chase, praticamente jogando o problema para cima dela. 
    - A verdade, que voc mentiu e eu fui tonta o bastante para permitir isso... mas provavelmente seria um erro. Ento, por que no simplificamos tudo. Por exemplo, 
que ns passamos o fim de semana juntos e no deu certo. 
    - No passamos o fim de semana juntos - observara Chase. 
    - Foi apenas uma noite. E o que aconteceu no precisa terminar ali. 
    Annie, tola como sempre, sentiu o corao palpitar e esperou que ele dissesse que a amava. 
    Mas ele no disse nada. 
    - Eu sei que voc no quer se envolver novamente, mas tem que admitir que aquela noite foi memorvel. - Memorvel - concordara Annie, calma. 
    - Eu gostaria de v-Ia novamente. 
    - Aposto que sim - declarara ela, com dignidade, e desligara o telefone. 
    Por sorte, o trem para Stratham estava atrasado meia hora, devido ao mau tempo. 
    Annie conseguiu um lugar para sentar-se, embora o trem estivesse cheio. O senhor obeso sentado a seu lado parecia querer conversar. Falou sobre o tempo, comentou 
sobre o cenrio poltico e ia opinar a respeito da educao  de adolescentes nos dias atuais quando Annie pegou um jornal, pediu licena e comeou a ler a seo 
de economia. 
    Fora grosseira, mas no estava com vontade de conversar generalidades com um estranho. 
    Prendeu a respirao. 
    Era uma foto de Chase no jornal? Sim, era Chase, sorrindo para a cmera, parecendo satisfeito consigo e com o mundo. E por que no estaria? A seu lado, muito 
deslumbrante, estava Janet Pendleton. 
    - Maldito! - praguejou, quase soluando. O senhor a seu lado enrijeceu-se. 
    - Est falando comigo, senhora? 
    Ela ergueu o olhar. O homem a olhava como se ela tivesse sado de um sanatrio. Piscou para afastar as lgrimas. 
    - Tambm - desabafou. 
    Ento, largou o jornal, levantou-se e foi at a porta do trem. 
    Estava chovendo em Stratham tambm. 
    Bem, por que no estaria? Um final perfeito para um dia perfeito, pensou Annie, sombria, enquanto caminhava pelo estacionamento. Nem adiantava correr, j estava 
mesmo toda ensopada. O que mais poderia acontecer? 
    Chegou em casa, tornou banho e vestiu um robe. Foi at a cozinha e optou por urna refeio congelada. 
    Colocou o prato no microondas. J ,estava abrindo a embalagem quando a campainha tocou. 
    Annie olhou para o relgio. Quem seria a essa hora? Talvez fosse Dawn. Sorriu. Dawn e Nick moravam a apenas meia hora dali e costumavam visit-Ia. A filha aceitara 
o fracasso da suposta tentativa de reconciliao dos pais. 
    - Lamento tanto, me, mas pelo menos vocs tentaram. 
    No eram Dawn e Nick. Era Dbora Kent, parada na chuva, trazendo uma enorme caixa de pizza. 
    - Posso entrar ou vou ter que me sentar no carro e consumir todas estas calorias sozinha? 
    Annie animou-se. 
    - Que tipo de amiga eu seria se a deixasse entregue a esse destino? - replicou, e pegou a caixa. - Vamos entrando. 
    - O tipo que ignora telefonemas seguidos - resmungou Deb despindo a capa de chuva. - Est pingando gua. Quer que eu a pendure na lavanderia ou o qu? . 
    - Deixe ali na cadeira - indicou Annie, e foi para a cozinha. 
    - Fique  vontade enquanto pego pratos e guardanapos. 
    Deb surpreendeu-se ao ver a refeio solitria sada do microondas.  
    - Eslou vendo que interrompi um jantar de gourmet - ironizou, afastando o pratinho com unhas bem-feitas. 
    Annie tirou duas latas de refrigerante diettico da geladeira e colocou-as sobre o balco. 
    - No imagina o sacrifcio que vai ser comer uma fatia dessa pizza. 
    - Uma fatia?! - Deb abriu a caixa,  tirou um tringulo enorme da massa e depositou-o no prato de Annie. - Vai comer metade dessa maravilha. - Serviu-se de urna 
fatia igualmente generosa. - Ento, o que h de novo na sua vida? 
    - Oh, no muito. - Annie sentou-se na banqueta. - E voc, corno est? 
    - Boa pergunta - replicou, indignada. - Para algum que devia ser a minha melhor amiga, voc no tem me dado ateno ultimamente. No retoma mais suas ligaes? 
    - Claro que retorno. Eu estive ocupada, s isso. Hummm, esta pizza est tima. E pensar que eu ia comer um congelado diettico... Nem que eu tenha que desistir 
de comer pelo resto da semana, essa pizza definitivamente ter valido a pena. 
    - No tente me enganar, Annie Cooper.  Ocupada, ?  - Essa pizza est mesmo o mximo. 
    - Pode fingir. - Deb pegou outra fatia. - Ningum pode estar to ocupada assim, a no ser que no almoce mais.  Est virando a moa do "no". No quer ir ao 
cinema, no quer ir s compras, nem para aproveitar urna superliquidao... 
    - Desculpe-me, Deb.  verdade, eu estou, como disse, muito... _ E ao invs de partilhar as boas novas comigo, o que  dever de toda boa amiga, me deixou a conjecturar 
aqui sozinha - prootestou Deb, pegando mais um pedao de pizza. 
    Annie esboou um sorriso. Ningum sabia o que acontecera na ilha. Ningum imaginava que ela fora para l com Chase, exceto Dawn e Nick.  
    - Que boas novas? 
    - Voc sabe. 
    - No sei, seno no estaria perguntando. Vamos, Deb. De que est falando? 
    Deb afastou o prato e abriu a lata de refrigerante. 
    - Bem, para comear, quando~ai me contar que dispensou o velho Milton Hoffman? 
    - Oh, isso! 
    - Sim. Isso. No que ficasse triste em saber. Milton  um timo rapaz, mas ele no  para voc. 
    - Onde ouviu... 
    - Encontrei-me com ele no supermercado outro dia. - Deb achegou-se. - Sabia que ele come cereais sem gordura? 
    No estou surpresa, comentou Annie, em pensamento. Ento, franziu o cenho por pensar algo to grosseiro. 
    - Bem, e da? - indagou,  fiel. -  Isso no o torna umna m pessoa. Alm disso, se quer saber se ainda estamos nos encontrando, voc deveria ter perguntado a 
mim. No tem que ir alfinetar o pobre Milton. 
    - Eu no fui alfinetar o pobre Milton! Ele estava na seo de  cereais, parecendo muito infeliz, e eu fui com o meu carrinho at ele e disse que ele deveria 
experimentar o cereal de aveia, ou talvez o de fibras, dependendo da necessidade dele. Quero dizer, quem sabe o que se passa por trs daquele palet? E ele lanou 
um olhar que me fez lembrar de um cozinho bass que tive. Voc se lembra dele? Era a coisinha mais terna... 
    - Deb, o que Milton disse? 
    - Ele s perguntou se eu a tinha visto ultimamente. E eu disse, bem, que tnhamos almoado h algumas semanas. E ele disse que era mais do que ele tinha feito. 
E eu disse... 
    - Epa. - Annie ergueu as mos. - Deixe-me simplificar a questo, certo? Milton  um homem adorvel. Um homem agradvel. Mas... 
    - Mas? 
    - Mas, somos apenas amigos. 
    - Ele parecia achar que vocs tinham sido algo mais. - Deb serviu-se de outra fatia de pizza. - Como se tivessem feito planos. - No! Ns nunca... - Annie levou 
as mos ao rosto. - Oh, minha nossa, sinto-me terrvel! 
    Deb passou o guardanapo nos lbios. 
    - Voc mexeu com ele - acusou Deb, severa. 
    - No. Ou melhor, suponho que sim... - Annie e contou a Deb o que se passara na festa de casamento de Dawn, quando forcei uma situao com Milton por causa de 
Chase. - Mas eu esclareci tudo depois - acrescentou, rpido. - Expliquei que... que disse coisas sem propsito e que... 
    - Voc despedaou o coraozinho dele - sentenciou Deb, solene. Sorriu e golpeou Annie levemente no brao. - No me olhe assim! Estou exagerando. Milton parecia 
bem. Mais feliz do que jamais vi. Para dizer a verdade, enquanto conversvamos, uma mulher chegou de outra seo e ficou de brao dado com ele. O nome dela  Molly 
e no  preciso ser gnio para saber o que est acontecendo com eles, j que estavam dividindo o carrinho. 
    Annie suspirou aliviada. - Estou contente. 
    - Milton mandou-lhe lembranas. 
    - Honestamente, Deb... 
    - Honestamente, Annie, por que no me contou que passou um fim de semana com o ex? 
    Annie ruborizou at a raiz dos cabelos. - Do que est falando? 
    - Dawn me contou. Encontrei-me com ela na seo de limpeza. 
    - J considerou mudar de supermercado? O que mais a minha adorvel filha lhe contou? 
    - S que voc e Chase estavam tentando uma reconciliao e que no deu certo. Confere? 
    - Sim. Foi isso mesmo. 
    Deb, que no era tola, estreitou o olhar. 
    - Talvez a sua garotinha tenha engolido a histria, mas tenho mais anos nas costas. 
    - E o que isso quer dizer? 
    - Quer dizer que no vai me contar o que realmente aconteceu? 
    - No aconteceu nada. 
    - Annie... - advertiu Deb. 
    A campainha tocou. Annie agradeceu aos cus. 
    - No me deixe, esperando - alertou Deb, enquanto Annie corria da cozinha. - Vou retomar a inquisio, est ouvindo? 
    - Estou. 
    Havia um menino na varanda. - Sra. Annie Cooper? 
    Annie recebeu a caixa branca. 
    - Sim, mas no vou receber a encomenda. 
    O menino olhou para o endereo do destinatrio. - Rua Spruce, 126? 
    - Sim, mas voc vai levar as flores de volta. 
    - So rosas, senhora. De cabo longo, vermelhas... 
    - Eu sei como elas so, e no as quero. 
    - Mas ... 
    - Tome. - Ela passou uma nota de dez dlares para o menino. 
    - Por voc ter de sair com esse tempo. 
    - Mas, senhora... 
    - Boa noite. 
    Annie fechou a porta. Suspirou e fechou os olhos. 
    - O que foi tudo isso? - indagou Deb. - De quem eram as rosas? 
    - De Chase. Ele est fazendo isso h semanas. A sua pizza vai esfriar, se no comer logo. 
    Voltaram  cozinha. Deb olhou para o prato e ento, para Annie. - Deixe-me ver se entendi. Voc saiu com seu ex, ele manda flores desde ento e quer que eu acredite, 
que nada aconteceu entre vocs? 
    -  exatamente o que eu espero que acredite - confirmou Annie, e comeou a chorar. 
    - Que homem horrvel! - classificou Deb, meia hora depois. 
    - Ns ramos to jovens quando nos casamos, Deb. Eu achava que o casamento era um conto de fadas, sabe, o prncipe encontra a donzela e eles vivem felizes para 
sempre. Mas no  bem assim. 
    Voc precisa investir no casamento, conversar sobre os seus obbjetivos e problemas. 
    - E vocs no conversavam. Annie balanou a cabea. -No. 
    Desolada, assoou o nariz novamente. - Bem, nunca  tarde demais. 
    - . - Annie jogou a toalha de papel no lixo e pegou outra. 
    -  tarde demais. - 
    - E a tentativa de reconciliao? 
    - Eu lhe disse. No foi de verdade. Ns s fingimos, por causa de Dawn. 
    - Mas fizeram amor. 
    - Eu fiz amor. Chase... Chase pensa que dormimos juntos. - 
    Annie lanou um olhar severo a Deb. - E no se atreva a dizer que  a mesma coisa. 
    Deb sorriu, triste. 
    - Creia-me, Annie. At eu sei que no . Bem, o que aconteceu quando o fim de semana acabou? Ele no a quis ver mais? 
    - Quis. -Annie ficou sria. - Ele telefonou uma dzia de vezes. Com certeza queria me ver. Para fazer sexo. E nada mais. - Voc no acha que seria bom v-Io? 
Contar a ele como se sente? 
    - No! No! J  ruim eu ter mostrado como eu me sentia. Na cama quero dizer. Eu... - Annie balanou a cabea. - No quero mais falar sobre isso. No adianta 
nada. Conversar no vai mudar nada... 
    O telefone tocou. 
    - Quer que eu atenda? - ofereceu-se a amiga. Annie balanou a cabea. 
    - A secretria eletrnica atende. No quero conversar com ningum. 
    - Oi. Sou eu, mas no posso atend-lo agora. Deixe uma mensagem e o telefone, darei retorno assim que possvel. 
    - Muito original. 
    Annie sorriu, mas ficou sria ao ouvir a voz de Chase. 
    - Annie? Annie, sou eu. Por favor, meu bem, atenda se estiver a. 
    - Falou no diabo... - sussurrou Deb. 
    - Tudo bem - declarou Chase, e suspirou. - Como posso saber por que no quer falar mais comigo, se no atende o telefone, nem entra em contato? 
    Annie cruzou os braos. 
    - Ele sabe muito bem por qu. 
    - Estou em Porto Rico - dizia Chase. -  um novo cliente... Raios, Annie, no vou contar a histria toda. O caso  que estou voltando para Nova York esta noite. 
Na verdade, estou no aeroporto pronto para embarcar. 
    - Fascinante - resmungou Annie. - Ele vai me dar o itinerrio agora. 
    - S vou ficar em Nova York uns dois dias antes de voltar a San Juan, e, ento, ficarei livre por algum tempo. E imaginei se h alguma possibilidade de nos encontrarmos 
novamente... 
    - Dormir com ele, quer dizer - traduziu Annie, franzindo o cenho ao telefone. 
    - Sei que j disse isso antes, meu bem, talvez uma centena de vezes nesse seu aparelho, mas acho que uma ltima tentativa no vai fazer mal. Annie, sei que no 
pretendamos nos envolver novamente: Sei que fomos forados a ficar juntos porque fiz uma trapalhada com Dawn. Mas achei... achei realmente que aquela noite que 
passamos juntos foi incrvel. E... 
    - E devamos repetir a dose - completou Annie, friamente. 
    - E eu sabia que no tinha o direito de pedir-lhe que me aceitasse de volta, Annie. Por isso, fiquei pensando durante toda a viagem de volta de Seattle. Voc 
fez uma nova vida sozinha e encontrou um companheiro, e percebi o quanto lamentava o que tinha acontecido na cabana, assim que voc acordou. Voc estava to silenciosa, 
com o mesmo olhar reservado que nos acompanhou nos ltimos anos de nosso casamento. 
    - Annie? - chamou Deb, incerta. - Est ouvindo? 
    - Annie... eu te amo! - declarou Chase. - Se preferir o poeta maricas, vai ter de me encarar e dizer com todas as palavras. No sou muito bom com palavras, mas 
posso dizer que a amarei at o fim da vida. 
    Annie derreteu-se toda: - Chase... oh, Chase... 
    - A nica mentira que contei naquela cabana foi que estava noivo de Janet Pendleton. Janet  uma tima moa. Eu gosto dela. Mas no a amo. Eu j disse isso a 
ela. Nunca poderei amar algum seno voc. 
    - Annie, atenda o telefone! - desesperou-se Deb. 
    - Esto anunciando meu vo, mas... bolas, no vou tom-Io! Mudei de idia. Vou para Boston e estarei em sua porta em poucas horas e aviso: se no atender  campainha, 
vou entrar assim mesmo... 
    Annie correu para o telefone, mas era tarde demais. Ele j desligara. 
    - Annie, o que voc vai fazer? - indagou Deb. Annie sorriu. 
    - Boston, a vou eu! 
    Chovia em Boston tambm. 
    Todos os vos estavam atrasados, conforme anunciava a voz pelo sistema de alto-falantes. O terminal estava lotado de viajantes cansados. As pessoas acomodavam-se 
em qualquer lugar. Haviafilas no banheiro femiinino, diante das mquinas de salgadinhos, nos balces. Bebs choravam, passageiros nervosos discutiam com os atendentes, 
mas Annie no notava nada disso. 
    Estava de viglia junto ao porto nove. Toda hora, olhava para o painel de chegadas e partidas. 
    Nem sabia se estava esperando no lugar certo, mas no tinha outra opo. 
    Parecera-lhe uma idia maravilhosa ir para Boston e recepcioonar Chase. Imaginou a expresso dele quando a visse esperando, imaginou-se correndo para ele e sendo 
saudada com um abrao. 
    No meio do caminho para o Aeroporto Logan, ocorreu-lhe que no sabia em que vo  ele estava. 
    Tirara o p do acelerador. Talvez devesse voltar. 
    Voltar? E ficar andando de um lado para o outro? Enlouquecendo no processo? No. No podia fazer isso. Por isso vestira cala jeans e camiseta, calara tnis 
e pegara o carro. Precisava fazer alguma coisa, seno enlouqueceria. 
    Precisava ver Chase assim que ele descesse do avio, iria correr para ele e dizer-lhe que nunca deixara de am-lo. 
    Voltara a acelerar o carro. Ao chegar ao aeroporto, j tinha um plano. 
    Dirigiu-se ao balco de informaes. Embora no soubesse por qual companhia area ele viajava, conseguiu que a atendente listasse trs possibilidades. 
    Seu plano era simples. Esperaria cada vo, pela ordem de chegada: Se ele no descesse no primeiro, iria para o porto do vo seguinte e, se fosse preciso, faria 
isso ainda uma terceira vez. 
    Estava j aguardando o ltimo vo possvel. E se Chase no estivesse nele? 
    Annie sentiu as mos trmulas e enfiou-as nos bolsos da jaqueta. Talvez ele no tivesse conseguido trocar o vo. Havia uma outra possibilidade, que no considerara 
seno naquele instante. Chase podia ter desembarcado no Aeroporto Bradley. Nesse caso, estaria a caminho de casa agora. E se ele tocasse a campainha? E se achasse 
que ela sara com Milton Hoffman? 
    - Oh, no, por favor, por favor... Chase no estava naquele vo. 
    Annie comeou a chorar. Um casal olhou para ela, curioso. Sabia que estava horrvel, mas no se importava. 
    Nada mais importava agora que perdera Chase pela segunda vez. Voltou-se e comeou a andar, cabisbaixa. 
    - Annie? 
    Que grandes idiotas tinham sido, os dois. To apaixonados e to incapazes de conversar, de se entender. 
    - Annie?  
    Nunca haveria outro amor em sua vida. Chase ficaria em seu corao, para sempre. 
    - Annie! 
    Sentiu mos nos ombros, mos familiares. 
    - Chase? - sussurrou ela, e voltou-se para ver o ex-marido. Fitaram-se com ternura. Ento, Chase abriu os braos. Ela se lanou contra ele e beijaram-se, alheios 
s pessoas e ao barulho no terminal. 
    Um  bom tempo depois, afastaram-se do centro das atenes. 
    - Annie, querida. - Ele tomou-lhe o rosto. Ela era linda. To perfeita. Inclinou-se para beij-Ia ainda mais uma vez. - Desculpe-me, querida - sussurrou. - Nunca 
tive a inteno de magoar voc. Sempre a amei, Annie. Tudo o que fiz; meu bem as horas de trabalho, as festas para realizar contatos comerciais tudo foi por voc. 
Eu queria que voc tivesse tudo. Queria que se orgulhasse  de mim. Queria que se sentisse feliz por ser minha mulher. 
    Annie tomou-lhe as mos e sorriu, apesar das lgrimas emocionadas. 
    - Mas eu sempre me orgulhei de voc - declarou. - No sabia disso? Eu no me importava se estava cavando valas, desde que me amasse. 
    Chase abraou-a e beijou-a. 
    - Annie Bennett Cooper, quer se casar comigo? 
    - Oh, sim! - respondeu Annie - Oh, sim, Chase, sim... 
    - Esta noite, meu bem. Podemos pegar um avio para o Caribe e nos casar na ilha Saint John. 
    - Que idia maravilhosa! - avaliou ela, e beijou-o. Chase pousou o brao nos ombros dela. 
    - Venha, vamos procurar um balco de reservas. 
    No meio do caminho para a escada-rolante, ele estacou. - Espere-me aqui um minuto - pediu. 
    Beijou-a e entrou numa das lojas do aeroporto. 
    Annie olhou atravs da vitrine. Havia um vaso enorme com rosas vermelhas. Chase tirou a carteira do bolso e falou com a atendente. Segundos depois, estava novamente 
diante dela, com uma rosa perfeita na mo. 
    - Lembra-se daquela noite h muitos anos? - perguntou ele. 
    - Eu tinha assinado o meu primeiro grande contrato e trouxe-lhe uma rosa assim... 
    Annie ficou emocionada. 
    - Lembro-me. 
    - Eu a amo tanto quanto naquele dia, meu bem. - A voz dele estava rouca. - Se isso  possvel, eu a amo ainda mais. 
    Annie recebeu a rosa. 
    - Eu nunca deixarei de amar voc, Chase - sussurrou, e aninhou-se no abrao do marido. 
    
    
    EPLOGO
    
    Um dia aps o Natal, os Cooper tinham parentes e amigos reunidos na sala de estar. 
    - Seu pai e eu no conseguiramos consumir toda essa comida  sozinhos - comentara Annie, ao ligar para Dawn convidando a ela e Nick para jantar. 
    - No precisa me convencer, me - respondera Dawn, com alegria na voz - Se h um aspecto que particularmente no aprecio na vida de casada  cozinhar. 
    Naquele momento, sentada no sof ao lado do marido que a envolvia pelos ombros, Annie olhou para a famlia e entendeu que nunca havia sido mais feliz. 
    Dawn e Nick estavam sentados de pernas cruzadas junto  rvore de Natal enorme que Chase trouxera na semana anterior. 
    - No vai caber - grunhira ele, ao arrastar a rvore para dentro. 
    - Claro que vai! - insistira Annie. 
    Conseguiram... aps Chase cortar meio metro do tronco coma serra. 
    A irm de Annie, Laurel, estava presente, junto com o marido. 
    Os dois se beijavam como se no existisse mais nada no mundo. Numa pausa, ele pousou a mo no ventre da esposa e sussurrou algo que a fez corar. 
    Annie sorriu, desviou o plhar e focalizou a amiga, Deb; que conversava com um rapaz simptico junto  lareira. Conhecera-o havia poucos meses. 
    - No supermercado? - perguntara Annie, provocando a amiga. Deb ruborizara. 
    - Na biblioteca, mas, se contar a algum, eu nego tudo. Annie suspirou e pousou a cabea no ombro de Chase. Que diferena faziam uns poucos meses. Sentira-se 
to infeliz no vero e agora... bem, agora, seu corao transbordava de alegria. 
    - Meu bem? 
    Ela ergueu o olhar para Chase. 
    - Acha que est na hora de contar a todos sobre os nossos planos? 
    Annie devolveu o sorriso. Estavam casados havia meses e a lua-de-mel parecia perdurar. 
    - Acho que sim - concordou ela. 
    Chase beijou-a. Ento, segurou-lhe a mo e, trazendo-a consigo, levantou-se. 
    - Ateno, todo mundo! Ouam, por favor... 
    Todos  voltaram-se e olharam para Chase e Annie. 
    -  que Annie e eu estvamos com um problema... Seguiram-se grunhidos e gemidos de lamentao. Chase riu e trouxe Annie para mais junto de si. 
    - O problema era onde iramos morar. Annie adora esta casa antiga e eu estava muito feliz com meu apartamento em Nova York... 
    - Deixe-me adivinhar - provocou Deb. - Vocs resolveram erguer uma barraca na praia, no Taiti. 
    Todos riram. Ento, Chase ergueu a mo. 
    - Annie tem sua empresa de paisagismo e eu, a minha construtora. Como disse, ns tnhamos um problema. - Olhou para a esposa. - Conte a todos como ns solucionamos 
o impasse, meu bem. 
    - Bem, quando tivemos a idia, pareceu simples... - comeou Annie. 
    - Eu acertei! - festejou Deb. 
    - Compramos uma ilha na costa do Estado de Washington- revelou Annie. 
    Dawn levantou-se. 
    - Uma ilha, me? Aquela ilha? Annie ruborizou. 
    - Aquela ilha. Seu pai conversou com o sr. Tanaka e convennceu-o de que havia uma outra ilha  venda na costa que serviria muito melhor aos propsitos dele. 
    - Vou construir uma casa para ns - informou Chase. 
    - J no tem uma casa l? 
    Chase e Annie sorriram um para o outro. 
    - Tem uma casa muito bonita - confirmou ela. - Mas decidimos que queramos algo s nosso. Algo mais... mais caprichado. 
    - Olhou para as pessoas ao redor. - Chase vai construir a casa, eu vou montar o jardim e, depois, vamos juntar foras. Cooper & Cooper Projetos Paisagsticos. 
- Sorriu. - Costumo cobrar caro, hein? 
    Todos riram e Dawn bateu palmas, dizendo: 
    - Bem, j que  hora de fazer comunicados,  a minha vez. Vou voltar a estudar, no prximo semestre. 
    Annie entusiasmou-se. 
    - Oh, meu bem, que notcia maravilhosa! 
    Nick sorriu orgulhoso e passou o brao ao redor da cintura da esposa. 
    -No  mesmo? Dawn vai se formar daqui a quatro anos e ento... - Ele ruborizou. - E ento... vamos aumentar a famlia. -  assim que se fala, Nick! - aprovou 
Damian, piscando para a esposa em seus braos. - Claro que, a essa altura, Laurel e eu vamos estar no segundo beb, ou no terceiro... 
    Todos aprovaram, alegres. 
    - Saibam que no tm o monoplio das boas novas! - declarou Deb. Respirando fundo, olhou ternamente para o homem a seu lado e enganchou-se o brao no dele. - 
Arthur me pediu em casamento. - Deb suavizou a voz. - E eu disse "sim".  tarde demais para voltar atrs, Arthur. Tenho testemunhas. 
    Em meio s risadas e comentrios brincalhes que se seguiram,  foi fcil para Annie e Chase escaparem para a cozinha. 
    Ele a tomou nos braos. 
    - Sabe, aps todos esses anncios felizes, estive pensando... 
    Ela sorriu. 
    - Sim? 
    - Bem... 
    - Bem o qu? 
    Chase devolveu-lhe o sorriso. 
    - Talvez devamos reconsiderar os planos para a nova casa. Quero dizer, l onde seria o nosso quarto... no  ficaria bem um quarto de criana? 
    Annie olhou bem para o marido. Ento, sorriu, lanou os braos em torno de seu pescoo e puxou-o para um beijo apaixonado. 
    
    FIM
    
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